Sob esta inspiração bíblica, de Jesus no Horto das Oliveiras, um grupo de leigos católicos trirrienses que compõem a recém-criada Comissão de Justiça e Paz (CJP) publicaram na Solenidade de Corpus Christi uma nota sobre a crise brasileira. Parabenizo à CJP pela lucidez e imparcialidade do pronunciamento. Foram capazes de ir além dos interesses dos grupos políticos de esquerda ou de direita, para além do casuísmo ou imediatismo para poder defender a dignidade humana, os direitos humanos e sociais e uma democracia madura. Recebeu por isso a aprovação previa de publicação do Bispo Dom Nelson Francelino Ferreira que a classificou de “Boa Nota”, bem como a aprovação previa nossa e dos párocos Pe Júlio Maia e Pe Roshan D´Souza. Ei-la na íntegra!

            Vigiai e orai para não cairdes em tentação (Mt 26, 41).

 A Comissão de Justiça e Paz, organismo da Igreja Católica em Três Rios, quer dizer a sua palavra diante do momento nacional. A crise política em que vivemos nos faz ter, enquanto cristãos, um posicionamento crítico diante de práticas que vêm no sentido contrário da caminhada do Povo de Deus para a construção da Civilização do Amor. Nesse contexto, somos chamados à vigilância e à oração para estarmos atentos aos diversos caminhos que essa crise pode nos levar, desde a perda dos direitos - a garantia da assistência e a promoção da vida dos mais pobres - até o início de um retrocesso no processo democrático brasileiro.

A vida e a prática de Jesus são a nossa referência. A cruz de Jesus foi resultado da sua opção, assumindo claramente as dores e as angústias dos pobres e excluídos. E certamente a sua condenação não foi resultado de um processo justo. Jesus foi perseguido, traído, humilhado publicamente e passou por diversos “tribunais” já viciados, em que o resultado era conhecido antes da sua proclamação, protegendo sempre os interesses privilegiados daqueles que os compunham e por quem eram representados.

Dentro dessa perspectiva, acreditamos ser necessária uma atenta observação às possíveis injustiças que podem ocorrer nesse momento histórico. A garantia do estado de direito tem que ser a mola mestra de qualquer julgamento. Não podemos concordar e aceitar que resultados de julgamentos sejam apenas consequências de relações de forças dentro de um Congresso Nacional. Que as decisões sejam pautadas na disputa de poderes e não no objeto que está sendo julgado. A dignidade humana tem que estar no centro de todo o processo. Ninguém pode ser condenado antecipadamente e intencionalmente sem ter comprovada a sua culpa e nem ser imposta uma regra exclusiva (de forma oportunista) a uma única pessoa independentemente do cargo ou função que exerça.

Depois desse processo todo e dos últimos acontecimentos, está cada vez mais claro que o que está por trás disso tudo não é a luta contra a corrupção, que mobilizou milhões de pessoas em manifestações. Mas a reimplantação de um projeto político e econômico que tem por trás os interesses do Mercado em detrimento das perdas dos direitos sociais historicamente conquistados, ou seja, a opção por uma economia neoliberal. E dizer Não a esse projeto é reafirmar aquilo que o Papa Francisco disse “assim como o mandamento ‘Não Matarás’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer: Não a uma economia de exclusão e da desigualdade social. Esta economia mata” (Evangelii Gaudium, 53).

E por fim, nós da Comissão de Justiça e Paz em Três Rios, queremos reafirmar que a luta contra a corrupção tem que estar conjugada à luta para garantir todos os direitos humanos e sociais. E que a crise nos impõe a luta por uma Reforma Política, com participação ampla, que reveja e transforme esse sistema político cada vez menos representativo e atrelado a uma cultura do clientelismo.

Comungando nessa Solenidade de Corpus Christi do “pão vivo descido do céu para a vida do mundo” (Jo 6, 51) vigiemos a nossa consciência justa, sábia e comprometida com o Brasil de todos e para todos.

Medoro, irmão menor-padre pecador