“Vem, Senhor Jesus”! Eis a súplica da Igreja e de cada cristão em particular nessas quatro semanas do tempo litúrgico do Advento, em preparação, não só às Solenidades do Natal que se aproxima, mas à vinda do Senhor às nossas vidas, à história de todos os povos e na plenitude dos tempos. Estas devem refletir os corações abertos, desejosos de um encontro mais profundo com o Salvador; o que implica corações igualmente abertos e mãos estendidas aos irmãos empobrecidos com os quais o Libertador quis se identificar. Sim. Nasceu efetivamente como um sem-teto, na periferia de Belém, numa pobre gruta. Cresceu e viveu 30 anos numa família operária de um simples carpinteiro de Nazaré, São José. Por três anos dedicou-se ao anuncio do Reino de Deus com a Palavra, os milagres e atitudes condenatórias às injustiças de seu tempo. Foi assassinado numa cruz e, ao terceiro dia ressuscitou para ficar para sempre junto de nós!

            “Vem, Senhor Jesus!” é uma súplica que, em primeiro lugar, implica numa atitude de acolhimento pessoal de sua pessoa e de sua palavra. Isso significa ir além de praticas religiosas exteriores, mas de deixar-se ser instruído e convertido por seu Evangelho. Essa é uma atitude permanente e crescente de conversão do coração que implica vida orante e disposição sincera e sempre renovada, não obstante à realidade do pecado no qual sempre recaímos, de sermos seus discípulos e discípulas, seus seguidores. A oração é o diálogo amoroso com o Amigo que nos ama. Além das orações bíblicas e da tradição que recebemos da Igreja (o Pai nosso, a Ave Maria, aos Santos,...) é a oração com a qual permitimos a cristificação da nossa existência. Daí a confissão de fé de São Paulo: “Eu vivo. Mas já não sou eu quem vivo, é Cristo quem vive em mim” (Gálatas 2,20). Advento é, pois, o tempo de assumirmos com maior intensidade a nossa configuração ao Senhor.

                “Vem, Senhor Jesus!” é a rica e primeira perspectiva da fé que pode cair no risco de um intimismo religioso inconsequente, de um fanatismo mesmo, se não se expressa nas atitudes pessoais e coletivas no quotidiano da vida, na história. Aliás, desde a formação bíblica do Povo de Deus, o encontro com Deus se dá na História. Esta é o lugar da sua revelação e da revelação plena em Jesus Cristo. De fato, lendo os Evangelhos, descobrimos e contemplamos o Filho de Deus no cuidado da vida, no compromisso libertador com os pobres, os enfermos, os sofridos e os pecadores. Basta lembramos a resposta dele aos discípulos de João Batista se era ele o Messias: “Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados. Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!” (Mateus, 11,4-6).

            “Vem, Senhor Jesus!” é por fim a súplica que alimenta a verdadeira Esperança. Vivemos num momento cultural que se caracteriza pela desesperança. Esta se manifesta em atitudes que me atreveria chamar de pequenas e passageiras esperanças: estudar para trabalhar, trabalhar para ganhar dinheiro, dinheiro para comprar bens de consumo imediato, namorar para casar, casar para gozar a vida, etc..., etc... Muitas metas pequenas, ilusórias, rapidamente passageiras. Os bens de consumo não trazem a felicidade prometida, como os presentes de natal que envelhecem no dia seguinte. Mesmos os relacionamentos humanos queridos muitas vezes se frustram precocemente. E a solidão torna-se a torturante companhia de muitas vidas. Muitos acabam num vazio existencial tão profundo que parece o suicídio ser a única solução para parar e sofrer. Daí ser o Advento o tempo por excelência para acordar e alimentar a Esperança contra todas as “esperanças”. Advento é tempo de esperançar: “Vem, Senhor Jesus”!

Medoro, irmão menor-padre pecador