
O Império português só conquistou definitivamente nossa região, tomando-a definitivamente dos indígenas, nos séculos XVIII e XIX. Com a produção cafeeira, à custa do trabalho escravo, o Vale do Paraíba viveu seu apogeu e bancou o Império e logo posteriormente a República oligárquica. Os fazendeiros, barões e coronéis, viviam no fausto na região já conhecida até internacionalmente como Vale do Café. Era uma economia baseada na monocultura, do tipo plantation, alicerçada na mão-de-obra escrava e – como toda agricultura do tipo – depredadora do eco-sistema, tendo causado a extinção quase total da Mata Atlântica.
Com o fim da escravidão e a consolidação da hegemonia de São Paulo, só na década de 30 do século XX é que a região viverá novo período de desenvolvimento econômico, com a industrialização de nossas cidades.
É nesse contexto que nasce o Município de Três Rios, que até então era um distrito de Paraíba do Sul chamado Entre-Rios. Nossa cidade foi o primeiro pólo de desenvolvimento industrial do médio Paraíba do Sul. Não foi por acaso que na segunda metade da década de 70 foi batizada com o nome de Cidade Industrial. Mas, com o Brasil submetido às políticas econômicas de corte neoliberal, por volta da virada do milênio Três Rios foi vitimada por uma forte depressão, com impactos sociais sentidos até os nossos dias. Só nos últimos três anos, com a retomada das políticas de orientação desenvolvimentista foi retomado o crescimento industrial.
Do ciclo do chamado ouro verde, como era conhecido o café, restaram os belos casarões – verdadeiros palácios onde viviam os senhores de escravos e suas famílias -, uma pesada herança de injustiças sociais, a terra devastada, e a maior das heranças: a música genuinamente brasileira, o samba. Este, grande riqueza imaterial do nosso país, segundo pesquisa comprovada de Mário de Andrade, nasceu aqui, no que ele batizou de Vale dos Tambores. Segundo a pesquisa, o samba, fusão genial do ritmo africano com a melodia européia, foi levado para a então Capital – de onde se espalhou pelo Brasil – pelos escravos libertos de nossa região, transformados em sem-terra e jogados nas favelas e cortiços do Rio de Janeiro. Daí chamar-se a Bacia do Paraíba, formada pelos sub-vales dos afluentes do Paraiba do Sul, como Preto, Paraíbuna, Pomba, Muriaé, etc. de Vale dos Tambores. Nossa região, ao contrário do que se tenta passar, só foi Vale do Café, enquanto esse servia de lastro à economia nacional. O preço altíssimo, das chibatadas, das mortes ignominiosas, de milhares de escravos, não merece ser celebrado.
No samba sobrevive altivo o Vale dos Tambores. Mais do que um adjetivo é um substantivo que faz memória da resistência do último quilombo da região em Barão de Vassouras, no qual a resistência à fúria escravocrata se manifestou através da batida dos tambores de quatrocentos negros, homens, mulheres e crianças. Esse sacrifício foi como grito surdo e profético, como bradassem que para além de tamanho e cruel derramamento de sangue, ressuscitariam, e que com a sua resistência, fortaleza, vigor e ternura, constituiriam elemento fundamental na nação brasileira e que sem eles não haveria vida, ou progresso entre nós.
O samba é de tal porte que por ele dançando negros e pobres pisam sobre a dor. E é a partir daí, num novo tempo que nasce nossa querida cidade de Três Rios. Ela inaugura ou registra o passo novo da história em que negros e pobres teimam em resistir, rezar, cantar e dançar a esperança, esperança que precisa ser celebrada numa Orquestra de Tambores, a qual até o presente momento não encontrou eco político nas iniciativas culturais da região.
Assim, na 1ª Semana de Fé Política que estaremos realizando aqui na Igreja de São José Operário, entre 3 e 7 de setembro, a noite do dia 6 será dedicada a uma grande roda de choro, o ritmo-samba original, tocado pelos melhores de nossa cidade, sob a coordenação do grande músico e pesquisador Carlos Henrique Machado, de Volta redonda, que irá dialogar com o público sobre esse valor cultural tão fundamental para o novo tempo de desenvolvimento que a cidade ensaia.
Sem o resgate dessa identidade cultura bela e ímpar, o progresso ascendente poderá ser transformado em novas formas de dominação, sem vermos, inclusive, a superação das mazelas herdadas dos modelos econômicos – do café e industrial – anteriores. A cultura valorizada é fonte de dignidade e libertação social.
Medoro de Oliveira