O Calendário Litúrgico convida-nos nos próximos dias à reflexão e à oração sobre o futuro de nossas vidas: no dia 01 de novembro à contemplação da nossa participação na ressurreição de Jesus Cristo e na comunhão dos santos; e no dia 02 de novembro à contemplação de nosso limite humano nesta vida e da vida daqueles que nos precederam na vida eterna. Primeiro se celebra da vida eterna como esperança frente ao luto e à saudade de nossos finados e, porque não dizer, do nosso próprio fim. Tratam-se de datas com um conteúdo litúrgico-catequético que nos faz superar o medo e a tristeza frente à morte. E também a arrogância e a autossuficiência próprias dos homens de nosso tempo, em que o orgulho se arvora tirar a própria vida ou a vida dos demais. Convivemos, em nossa cidade, ao longo desse ano, com o quadro atípico de muitos suicídios e homicídios. Essas duas datas querem nos reeducar para o valor da vida!

Só Deus é Santo! Como proclama o Profeta Isaias e todos nós na Eucaristia: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do Universo (Is, 6,3)! Mas quis Deus, que participássemos de sua vida, portanto de sua santidade: “E ser-me-eis santos, porque eu, o Senhor, sou santo e separei-vos dos povos, para serdes meus” (Levítico 20,26). A vida de cada um é um dom específico de Deus para cada ser que Ele criou: “Mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver, porquanto escrito está: Sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1,15-16). Daí a exortação de São Paulo aos Filipenses e a nós: “Fazei todas as coisas sem murmurações nem contendas; para que sejais irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio duma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo; retendo a palavra da vida” (Filipenses 2,14-16a).

A vocação à santidade, à participação na santidade de Deus nos faz assim, viver o dia de Finados, não só na saudade – própria de todos que verdadeiramente amam -, mas na esperança-certeza da ressurreição e da vida eterna. Esta esperança nasce na ressurreição de Jesus. Apesar de Jesus ter sofrido a morte, foi ressuscitado pelo Pai, pois, sua vida se pautou inteiramente pela vontade de Deus (Jo 4,34; 10,30). A sua crucifixão foi obra dos inimigos de Deus, fechados para a salvação que lhes era oferecida. Portanto, pendente da cruz, está o Filho bendito (Mt 3,17; 17,5), que o Pai não permite permanecer no lugar dos mortos (Ef 3,9-10). Daí, a importância de se viver como discípulo de Jesus, viver como ele viveu, segundo a Esperança que não decepciona. E, no Dia de finados, ao lembrarmos nossos irmãos queridos que se foram, ter a certeza de que ressuscitados permanecem em Deus e entre nós. É a comunhão dos santos!

Essas verdades da fé que alimentam o sentido de nossas vidas devem também engajar-nos efetivamente da defesa e na promoção de todas as vidas, especialmente das vidas desesperançadas, mergulhadas no caos da tristeza e do sem sentido. E das vidas excluídas, feridas e descartadas pelo atual sistema político-econômico que privilegia uns poucos à custa do infortúnio de muitos. Assistimos e convivemos com uma cultura que considera a vida um lixo. Nesses dias temos um motivo a mais para nos solidarizarmos com nossas famílias que tiveram seus entes queridos ceifados pela crescente violência urbana. E mais. Como cristãos, católicos e das demais Igrejas cristãs, temos que nos dar as mãos e mobilizar a sociedade civil organizada, como o poder publico contra a insegurança coletiva, os homicídios praticados sobretudo pelo  trafico de drogas. E mais. Criar projetos que re-encantem a vida daqueles que já não suportam mais sofrer e por isso escolhem o suicídio, optam por morrer na ilusão de parar de sofrer.

A ressurreição de Jesus é a certeza da nossa e a razão de nosso compromisso com toda vida, da concepção ao fim natural. Tal esperança está na origem da fé cristã e, por ela, os mártires deram a vida, absolutamente, seguros de não serem decepcionados (Rm 5,5).

                                                      Medoro, irmão menor-padre pecador