
Alegro-me pela realização do Encontro da Pastoral Afro-diocesana, na Paróquia de Santa Tereza D’Ávila, em Rio das Flores, no último dia 18 de junho, acompanhado pelo Padre Damião da Cruz – Padre Assessor Diocesano -, assessorado pela Sra. Vera Lopes – antropóloga da Pastoral Afro-brasileira em São Paulo -, dirigido por Francisco Trindade – coordenador diocesano -, a convite do Padre Décio da Silva Epifânio – Coordenador Diocesano de Pastoral e Pároco Rio-florense –, e Adriano – coordenador local - e com a presença de cinco dos sete Grupos Afro-católicos em Valença, Paraíba do Sul, Sapucaia, Três Rios e Conservatória. Não conseguiram chegar o grupo de Vassouras e o Quilombo de São José da Serra.
Vejo como um passo muito importante na busca do aprofundamento da identidade e missão de tão necessária afro-pastoral essa grande reunião diocesana dos APNs- Agentes a Pastoral do Negro. Foram quase oitenta participantes no local também simbolicamente escolhido, o Patronato de Menores. Este durante décadas acolheu centenas de crianças, sobretudo afrodescendentes, arrancadas de suas paupérrimas famílias de negros lavradores do nosso Vale do Café. Vale de uma economia que não logrou resultados – passou muito rapidamente com seus herdeiros hoje empobrecidos – e feito à custa do vil trabalho escravo. E isso sem falar da devastação ecológica da mata atlântica, cujos resultados padecemos mais e mais.
Recordo as raízes religiosas afro-ameríndias primeiras, em nossas tão queridas benzedeiras e rezadores, com seus chás, banhos e rezas. Recordo igualmente o início de seu reconhecimento e resgate, com Monsenhor Nathanael que em Valença deu cidadania à estas santas curadoras do povo, até então excluídas como supersticiosas, e que abraçou a riqueza das Folias de Reis. Logo depois, no início dos anos de 1970, o Padre Sebastião com a Catequista e liturga Sonia Silva e outros fizeram as primeiras Missas afro-inculturadas. Na mesma época o Padre Rocha criou oficialmente em Paraíba do Sul junto com a teóloga leiga Nadir de Paula a Pastoral do Negro.
Logo se expandiu para Três Rios com os padres Francisco e Valentim, as leigas Teresa Alexandre, Tia Lourdes, Mariinha, Mestre Diolésio, Mestre Baiano e Nicéia e Sílvio. Nos últimos anos com as novas lideranças de Pedro, Claudia e Darlei. Concomitantemente chegou a Vassouras com o Padre Argemiro, Zezé e Nego. Foi particularmente muito forte em Sapucaia sob a liderança de Cleonice, Bernadete e Magrácia. Lembro ali da ordenação sacerdotal do Padre Betinho, enriquecida com símbolos e danças da afro-cultura, num belíssimo terreiro preparado no adro da Matriz de Nossa Senhora Aparecida. Em 20 de novembro ele completa seus 25 anos de ministério. O mesmo e deu na ordenação do Pe Décio em Monte Castelo.
Uma história de muita luta e resistência que nas últimas décadas ganhou relevo em Valença com a dedicação da Ilda de Paula, Lola, Tia Sônia, Quitinha e Mestre Cid. E chegou ao Quilombo de São José da Serra, em Santa Isabel do Rio Preto, com Alexandre e Toninho do Canecão. Logo depois com Francisco Trindade em Conservatória. Esperamos e rezamos para que esse momento, não só enriqueça a consciência de nossos agentes de pastoral e firme a caminhada dos poucos grupos da resistência, mas desencadeia um processo missionário que mobilize novos núcleos da Pastoral Afro em outras paróquias de nossa querida diocese.
Estes grupos, tão necessários para abraçar as justas causas e lutas dos afrodescendentes por vida com dignidade, Justiça e paz, são igualmente necessários para que se avance a encarnação da nossa fé cristã na cultura das nossas comunidades de belas negras e negros. Isso também porque a nossa liturgia romana não tem dado conta, do ponto de vista antropológico, de exprimir a índole religiosa afro-ameríndia com a riqueza e seus símbolos e ritos. O exemplo gritante dessa realidade é a necessidade de muitos e muitos católicos participarem dos cultos da umbanda ente nós. Uma pesquisa mostra que mais de 80% dos frequentadores dos terreiros são fiéis de nossas comunidades.
Saúdo, pois, a comunidade afro-católica com um afetuoso “Axé”!
Medoro, irmão menor-padre pecador