A Igreja celebra na próxima sexta-feira a solenidade do Sagrado Coração de Jesus. E desde 1995, por iniciativa do Papa João Paulo II, se celebra o Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes. O intuito de tal iniciativa é para ajudar os sacerdotes a “conformarem-se cada vez mais com o coração do Bom Pastor” e, consequentemente terem “cheiro de ovelhas”, para usar uma expressão recente do Papa Francisco.
A iniciativa, anualmente retomada, tem também contribuído para fazer crescer nos fiéis a estima e a oração pelos seus padres, bispos e diáconos, particularmente necessárias nesse tempo de tão poucos sacerdotes e tão poucas vocações. Muitas paróquias encontram-se sem seus párocos. Isso, num tempo, que se multiplicam outras iniciativas religiosas não católicas, em que cada comunidade tem o seu líder religioso.
O clero da nossa Diocese de Valença, no seu conjunto, é, na dedicação que geralmente manifesta, um bonito exemplo do que pode a graça divina em corações generosos e disponíveis, que vão muito além do humanamente previsível e socialmente habitual. Temos paróquias com mais de trinta comunidades sob o pastoreio de um único padre; todavia, com o confortante crescimento do laicato assumindo uma multiplicidade de ministérios.
Os sacerdotes santificam-se exatamente assim, pela prestação abnegada do seu serviço, conforme orienta o Concílio Vaticano II: “Os presbíteros alcançam a santidade, de maneira autêntica, pelo exercício do seu ministério, desempenhado sincera e infatigavelmente no Espírito de Cristo” (Decreto Presbyterorum Ordinis, nº 13). O Papa Francisco por ocasião do Dia Mundial de Oração pelas Vocações ressaltou esse caráter missionário dos sacerdotes: “Cada discípulo missionário sente, no seu coração, esta voz divina que o convida a «andar de lugar em lugar» no meio do povo, como Jesus, «fazendo o bem e curando» a todos (cf. At 10, 38).. Com renovado entusiasmo missionário, são chamados a sair dos recintos sagrados do templo, para consentir à ternura e compaixão de Deus de transbordar a favor dos homens. A Igreja precisa de sacerdotes assim: confiantes e serenos porque descobriram o verdadeiro tesouro, ansiosos por irem fazê-lo conhecer jubilosamente a todos” (cf. Mt 13,44).
Francisco exorta também o sacerdote missionário a aprender do Evangelho o estilo de anúncio. “Na verdade, acontece não raro, mesmo com a melhor das intenções, deixar-se levar por uma certa fome de poder, pelo proselitismo ou o fanatismo intolerante. O Evangelho, pelo contrário, convida-nos a rejeitar a idolatria do sucesso e do poder, a preocupação excessiva pelas estruturas e uma certa ânsia que obedece mais a um espírito de conquista que de serviço. (...) A nossa confiança primeira está aqui: Deus supera as nossas expetativas e surpreende-nos com a sua generosidade, fazendo germinar os frutos do nosso trabalho para além dos cálculos da eficiência humana”.
Isso implica necessariamente numa espiritualidade eucarística, conforme o Papa Bento XVI: “A semente desta espiritualidade encontra-se já nas palavras que o Bispo pronuncia na liturgia da ordenação: ‘Recebe a oferenda do povo santo para a apresentares a Deus. Toma consciência do que fazes, imita o que realiza, e conforma a tua vida com o mistério da cruz do Senhor’” (Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis, nº 80).
A santidade sacerdotal é também fruto da oração continuada e fervorosa dos fiéis. A Igreja aproxima-se de Deus por um movimento conjunto de louvor, súplicas e entreajuda. Cada sacerdote é um dom de Deus à Igreja, que se agradece, acompanha e estimula pela oração de todos. E o mesmo se diga das vocações na sua origem, em que se aliam a iniciativa divina e a colaboração orante das comunidades. Daí a “cobrança” do Santo João Paulo II: “A Igreja, portanto, é chamada a proteger este dom, a estimá-lo e amá-lo: ela é responsável pelo nascimento e pela maturação das vocações sacerdotais” (Pastores dabo vobis, 41).
Que a próxima sexta-feira, Dia de Oração pela Santificação dos Sacerdotes, sirva para que se renove em todas as comunidades a oração quotidiana e fervorosa pelo dom do sacerdócio ministerial e pela sua realização em sacerdotes santos, onde se manifeste a caridade pastoral que ardia no coração de Cristo. O futuro do sacerdócio ministerial depende em grande parte da intensidade da nossa oração no presente, com tal objetivo. Não podemos dispensar-nos daquilo que o próprio Deus nos confiou, como responsabilidade e encargo: “Rogai ao Senhor da Messe...” (Mt 9,38).
Medoro, irmão menor-padre pecador