Celebramos no dia 20 a memória do herói brasileiro, Zumbi dos Palmares, como Dia da Consciência Negra. Uma rica liturgia afro-inculturada, promovida pela Pastoral Afro-trirriense, emocionou a repleta Capela de Moura Brasil. Foram dezenas de pessoas de toda cidade, que abraçam a causa da superação da discriminação racial. No dia 23, em Paraíba do Sul, foi criado, por iniciativa do Secretário Municipal de Direitos Humanos e militante católico, João Batista Soares, o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial.

Trata-se de iniciativas sócio-culturais inclusivas, entre tantas outras, com a finalidade de reparar a hipoteca social que toda sociedade brasileira, especialmente as pessoas de origem europeia e ligadas às classes dominantes, tem em relação aos afro-descendentes. Como sabemos, no alvorecer do capitalismo o continente americano invadido pelos europeus foi transformado em gigantesca usina geradora de riquezas e a necessidade de mão-de-obra foi suprida com trabalhadores compulsórios, isto é escravos, trazidos violentamente de sua África natal.

Os milhões de escravos espalhados pelas colônias européias da América constituem lamentavelmente hoje a maioria das populações pobres dos países que delas surgiram. Aliás, um dos maiores intelectuais negros do Brasil, o historiador Joel Rufino dos Santos, diz que o preconceito é contra o pobre, o trabalhador, e que no Brasil negro é sinônimo de pobre, de trabalhador.

Nos Estados Unidos, país tido desde a independência da Inglaterra, no Século XVIII, como exemplo de democracia, até os anos 60 do Século XX, os negros eram discriminados e tratados como cidadãos de segunda classe. Estudavam em escolas separadas, não podiam entrar nos mesmos banheiros que os brancos, os casamentos entre negros e brancos eram proibidos.

Ainda hoje, mesmo tendo reeleito um negro para a presidência (por certos padrões adotados no Brasil Barack Obama, filho de um africano com uma estadunidense branca, seria considerado mulato, quem sabe “quase” branco) a esmagadora maioria da enorme população carcerária é constituida por negros, assim como os desempregados e os freqüentadores de todos os tipos de índice das estatísticas sobre desigualdade social, de oportunidades e relativas a crescente pobreza da população. Lá, a ‘novidade’ é que hoje, os negros passam a ter a companhia cada vez maior (nessas estatísticas) dos que a mídia(sempre controlada pelas classes dominantes, pelos que detêm o dinheiro) chama de hispânicos e que em sua maioria descendem das populações originárias dos países americanos de colonização espanhola.

 

Também aqui no Brasil, boa parte do que é hoje o país foi construída com o trabalho da mão de obra escrava. A esmagadora maioria dos pobres, desvalidos, habitantes das periferias, presidiários, sem-escola, sem-terra, desempregados, subempregados, é de descendentes dos africanos trazidos como escravos.

Nos últimos tempos muita coisa mudou. A política de cotas, tão criticada e combatida pelos continuadores da elite escravocrata (na política representada pelos integrantes de partidos conservadores como o DEM, herdeiro direto da ARENA dos tempos da ditadura), o sucesso das políticas públicas de atendimento as populações mais pobres (constituídas em sua maioria por negros e caboclos de ascendência indigena), etc.

O reconhecimento de Zumbi dos Palmares como herói, o Dia da Consciência Negra, etc. são conquistas não só dos descendentes dos escravos, mas de todos os brasileiros, de todos os que lutaram e lutam por democracia, justiça social, fraternidade, solidariedade.

Para nós seguidores de Jesus Cristo, enquanto todos os humanos não forem de fato irmãos, ainda não terá se realizado o Evangelho, ainda não teremos construído entre nós o Reino de Deus, Pai de todos. E é nessa perspectiva bíblica, levando em consideração o contexto injusto e excludente dos negros, que a Igreja do Brasil criou a Pastoral Afro-descendente. Nossa região(Onde milhares de escravos trazidos não só da África, mas também de diversas regiões do país, construíram a base econômica do Brasil moderno)  foi pioneira dessa iniciativa corajosa e inovadora abraçada pelos queridos Pe Rocha, Mestre Diolésio e Nadir de Paula.

O momento histórico desafia a todas as pessoas de boa vontade, especialmente a essa pastoral específica a enfrentar corajosamente as causas das chagas sócio-raciais lembradas. Isso pressupõe também a abertura da Igreja ao diálogo com as religiões de raiz africana, como a umbanda e o camdomblé. Estas foram e continuam sendo demonizadas enquanto convivemos permissiva e coniventemente com muitas seitas emergentes que se arvoram ao nome de evangélicas enquanto fazem de Jesus Cristo “moeda de troca”, para quem busca egoisticamente suas satisfações emocionais e materiais, sem nenhuma responsabilidade histórico-cultural.

Felicitamos assim, a pastoral afro, os grupos de capoeira, de samba e de pagode e as demais iniciativas protagonistas de uma sociedade fraternal!

Medoro de Oliveira