No próximo domingo estaremos festejando Pentecostes, a efusão do Espírito Santo que funda a Comunidade Cristã como, nas palavras do Papa Francisco, “uma Igreja missionária toda em saída”. De fato, segundo o Livro dos Atos dos Apóstolos, a identidade da Igreja se confunde com a missão (At 2, 1-13). A Igreja é e existe no ato da missão. Já em sua ascensão, Jesus ordenou: “Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15), confirmando o anúncio com os sinais de vida e misericórdia que o acompanham (cf Mc 16, 15-20). A nossa Diocese de Valença, fiel a esta origem optou celebrar os seus 90 anos com uma grande missão popular com o intuito de criar Círculos Bíblicos, como “uma Igreja em cada rua”, uma Igreja em saída.

 “A Igreja ‘em saída’ é a comunidade de discípulos missionários que ‘primeireiam’, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam. A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor e, por isso, ela sabe ir à frente, tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar ás encruzilhado dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inesgotável de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua força difusiva (...) Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se até a humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo”. (Evangelli Gaudium).

O resgate dessa compreensão de uma Igreja em saída, em cada rua exige também de todos nós católicos um profundo dinamismo pascal e eclesial que nos faça sonhar com um novo Pentecostes e apostar na conversão pessoal e pastoral como nos pedem igualmente os nossos bispos da América Latina e do Caribe (Conferência de Aparecida). Pensamos com o Papa Francisco e com o maior eclesiólogo da América Latina, Victor Codina:

- numa Igreja pobre, simples, próxima, acolhedora, sincera, realista, que promove a cultura do encontro e da ternura;

- numa Igreja que vai ao essencial, que se centra em Jesus Cristo contemplado e seguido, que difunde o bom odor do Evangelho e convida a que todos coloquem Jesus Cristo no centro de suas vidas; 

- numa Igreja da misericórdia de Deus, da ternura, da compaixão, com entranhas maternais, que reflete a misericórdia do Pai, uma Igreja, sobretudo hospital de campanha que cura feridas, que cuida da criação, na qual os sacramentos são para todos, não só para os perfeitos; 

- numa Igreja dos pobres, preocupada, sobretudo, com a dor e o sofrimento humano, a guerra, a fome, o desemprego juvenil, os anciãos, onde os últimos sejam os primeiros, onde não se possa servir a Deus e ao dinheiro; uma Igreja profética, livre em relação aos poderes deste mundo; 

- numa Igreja que sai às ruas, que vai às margens sociais e existenciais, às fronteiras, aos que estão longe, mesmo sob o risco de sofrer acidentes; uma Igreja que seja semente e fermento, que abra caminhos novos, que vá sem medo para servir, uma Igreja ao ar livre, que sai às sarjetas do mundo, uma Igreja em estado de missão; 

- numa Igreja que respeita os que seguem sua própria consciência, as outras religiões, os ateus, dialoga com não crentes... uma Igreja de portas abertas, atenta aos novos sinais dos tempos; 

- numa Igreja que considera que o Vaticano II é irreversível, que é preciso implantar suas intuições sobre a colegialidade, desclericalizar-se, evitar o centralismo e o autoritarismo no governo, caminhar em meio às diferenças, confiar maiores responsabilidades aos leigos, dar maior protagonismo à mulher...; 

- numa Igreja de pastores que “cheiram a ovelha”, que caminham na frente, atrás e no meio do povo

- numa Igreja jovem e alegre, fermento na sociedade, com a alegria e a liberdade do Espírito, com luz e transparência, sem nada a ocultar, com flores na janela e cheiro de lar, onde os jovens sejam protagonistas, pois são como a menina dos olhos da Igreja; 

- numa Igreja Casa e Povo de Deus, mesa mais que estrado e tapete, que respeita a diversidade, onde os leigos, as mulheres, as famílias jogam um papel relevante.

Que a inauguração das santas missões populares com a peregrinação da Imagem de Nossa Senhora Aparecida por uma Igreja em cada rua – os Círculos Bíblicos - nos faça a todos ser a Igreja de Aparecida, de discípulos e missionários para que os nossos povos em Cristo tenham vida, uma casa eclesial onde reina a alegria!

Medoro, irmão menor – padre pecador