A Igreja, como povo de Deus, cheia de graça e de verdade, no próximo Domingo de Pentecostes se veste de festa porque está celebrando seu nascimento. Ela finca suas raízes no acontecimento de Pentecostes quando o Pai, por seu Filho, envia o Espírito da verdade e da vida à humanidade. Os discípulos receberam a força do Espírito em um contexto de debilidade e de medo. As portas estavam fechadas, no meio do mundo, por temor. E é no meio desse mundo desafiador e do medo paralisante que o Espírito rompe as portas e destranca as janelas; o que era realidade fechada e assustada se converte em comunidade “em saída”, apostólica, missionária.

O Ressuscitado cumpre a promessa definitiva: envia seu Espírito. Espírito de vida e confiança, de fortaleza e verdade, de amor e graça. É o Espírito da liberdade, que arranca as portas dos temores e das seguranças e abre as janelas para deixar entrar o vento que faz viver o risco no amor comprometido; é o Espírito do fogo que aviva a luta pela dignidade e a possibilidade da reconciliação do ser humano ferido com o Deus providente e curador, que se revela como compaixão e misericórdia; é o Espírito que torna possível outro mundo, que ativa o cuidado para com a natureza: a ecologia que se faz comunhão e se humaniza, frente ao medo da destruição do universo e daqueles que o habitam.

Com sua presença rompedora, o Espírito enche a casa onde os discípulos estavam juntos. Ele não se deixa sequestrar em certos lugares que dizemos “sagrados”. Agora “sagrada” torna-se a casa: a minha, a tua e todas as casas são o espaço privilegiado da ação Espírito. Ele vem de imprevisto, e nos apanha de surpresa, pois nem sempre estamos preparados para deixar-nos conduzir por Ele. O Espírito não suporta esquemas, rompe o que está programado, é um vento de liberdade, fonte de vida expansiva.

Um vento que sacode nossa casa, que a enche de luz e segue adiante, que traz pólens de primavera e dispersa a poeira, que traz fecundidade e dinamismo para o interior de cada um, «esse vento que faz nascer os garimpeiros de ouro» (G. Vannucci).

Vivemos um permanente Pentecostes. Quando sentimos medo é porque nos centramos em nós mesmos, nos auto-referenciamos, e a realidade nos força a buscar refúgio e proteção. Nossa fragilidade e a violência do mundo nos alarmam e buscamos segurança e conservação. Mas isso dificulta anunciar o evangelho, levar a boa notícia ao mundo e impede nossa própria realização como cristãos, pois apaga nossa criatividade e esvazia nossa presença inspiradora. Celebrar Pentecostes é acreditar que “outra igreja é possível”, que temos de superar nossos medos para construir e ser a comunidade da confiança, aquela que se arrisca na missão e no exercício da misericórdia, aquela que se descobre como fermento no meio da massa e leva a alegria do evangelho.

O medo, a obscuridade e o fechamento da “casa interior” se transformam, agora com a presença do Espírito, em paz, alegria e envio missionário. São sinais palpáveis da ação misteriosa e transformante do Espírito no interior de cada um e da comunidade. 

Na vida cristã, ser espiritual faz referência ao Espírito de Deus. “Espirituais”, de algum modo, somos todos, mas a chave para deixar que essa dimensão da vida cresça está em facilitar que, dentro de nós, o Espírito de Deus tenha espaço para mover-se, ressoar e suscitar inquietações. Não se trata de que, ao habitar-nos, o Espírito nos invada. Antes, trata-se de uma convivência que potencia o melhor de nós mesmos, que faz que a solidão seja habitada e mantém os sentidos muito mais alerta. O Espírito ressoa na oração, na atividade, ao ver o noticiário, ao dar um abraço, ao ler um livro, em uma canção, ao contemplar um quadro, fazendo um passeio, escutando alguém que nos fala de sua vida... Ressoa na história e na imaginação que nos convida a sonhar um futuro melhor. Ressoa no encontro humano. E, sob seu impulso, amadurecem em cada um de nós aquelas atitudes que nos levam a viver com mais plenitude: compaixão, justiça, verdade, amor...

A violência, a injustiça, a intolerância e o preconceito em todos as instâncias da sociedade atual nos enchem de medo, desalento e desesperança. Não vemos saída e preferimos fechar-nos em nós mesmos, em nossos ambientes mofados e práticas religiosas alienadas, esquecendo-nos do grande movimento de vida desencadeado por Jesus, conduzido pelo Espírito de vida. É este mesmo Espírito que irrompe em nosso interior, transpassa as portas do coração e ilumina o entendimento para que compreendamos a novidade do Evangelho e tenhamos presença diferenciada no contexto em que vivemos. 

Deixar-nos habitar pelo Espírito implica romper a bolha que asfixia nossa vida e derrubar os muros que cercam nosso coração e atrofia nossa própria existência. A mudança de mente, de coração, de esperança, de paradigmas... exige que todos, em tempos de Pentecostes, revisemos nossas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando ideias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver...   que impedem a entrada do ar para arejar o próprio interior. Que as reflexões acima, do meu colega, Pe Adroaldo Palaoro, SJ nos ajude a bem celebrar e viver Pentecostes.

 

                                                      Medoro, irmão menor-padre pecador