Ao término de um velório de três dias, foi sepultado no último dia 02 de dezembro, segunda-feira, o irmão-bispo Dom Waldyr Calheiros de Novaes, da Diocese vizinha de Barra do Piraí-Volta Redonda. Na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Bairro do Conforto, em Volta Redonda, multidões de cristãos e cidadãos se sucediam nas homenagens de despedida, sempre com Missas a cada duas horas. A celebração final presidida por Dom Francisco Biazim, bispo atual, e dezenas de outros bispos e padres de toda parte foi, não um adeus, mas um comovido e esperançoso “até já” a quem durante 34 anos dos seus 90 anos dedicou-se integralmente à defesa, cuidado e promoção da vida de todos, especialmente dos trabalhadores e empobrecidos. Foi sepultado na cripta da Igreja de Santa Cecília.

            Natural de Murici, Estado de Alagoas, foi feito bispo pelo Papa Paulo VI que o acolheu como “Bispo dos Operários”, no Concílio Vaticano II, quando junto a outros bispos que então faziam a opção pelos pobres, era um dos signatários do “Pacto das Catacumbas”. Por esse contrato, assumiam viver pobres entre os pobres, como irmãozinhos de Jesus, despojados das insígnias, títulos ou honrarias do episcopado. A sua fidelidade a esse imperativo do evangelho o conduziu à defesa intransigente da causa operária da Cidade do Aço. E isso no fim da ditadura da direita quando se viu obrigado a enfrentar o poder militar na exigência bem sucedida de libertação das lideranças operárias, aprisionadas e torturadas a partir do segundo golpe de 1964.

            Não poucas vezes ameaçado e difamado como “bispo vermelho”, jamais se subjugou ao poder tirano, nunca retrocedeu ao compromisso com a classe operária, usando todo o seu poder em favor da luta pelos direitos humanos e pela justiça social. Poucos encarnaram, como ele, a iluminação e o calor da Teologia da Libertação, organizando a classe trabalhadora em sindicatos combativos e a presença católica em CEBs, Comunidades Eclesiais de Base, com sua hermenêutica bíblica que articula fé e compromisso social. Sua autoridade - verdadeiramente amor-serviço - unida à sua profunda piedade eucarística lhes dava poder de extraordinária articulação do episcopado brasileiro, especialmente da direção da CNBB. Admirado e querido por seus pares. “Profeta da Justiça”, fez evoluir a cidade de Volta Redonda e demais cidades da diocese, juntamente com o avanço do operariado.

            Com tamanho empenho pastoral a nível das estruturas eclesiais e  sociais, Dom Waldyr cultivada a compaixão para com todos os perseguidos, sofredores e empobrecidos. Dizia que “pequenos gestos de solidariedade valem mais que milhões de discursos”. Assim, ia incansavelmente ao encontro dos enfermos ou injustiçados em suas casas; ultrapassava as fronteiras de sua diocese para levar consolo e fortaleza. O colunista deste artigo foi, muitas vezes, objeto de sua caridade e cuidado nas circunstâncias adversas de sua missão social e pastoral com os trabalhadores rurais em Sapucaia e com a juventude na diocese.  Recordo-me que aqui em Três Rios veio trazer sua palavra profética no Congresso da Juventude, que reuniu mais de 3 mil jovens da região, por uma semana, há 29 anos atrás. Ameaças de explosões de bombas na concentração da juventude numa das noites no CAER, enfrentou denunciando vigorosamente as forças conservadoras de então.

            Mas igual energia usava para estar perto do povo simples e pobre, para visitar as famílias das lideranças comunitárias e operárias. Aos doentes em seus lares, não se contentava com uma única visita. Dos padres, igualmente era um pai amoroso, verdadeiramente um irmão--bispo. Não só os defendia incondicionalmente, mas os honrava sem obrigar-lhes fidelidade ao projeto eclesial que o consumia. De forma muito adulta, sabia cultivar a pluralidade pastoral e a fraternidade presbiteral, visitando informal e assiduamente a todos. E, ao mesmo tempo, usava o seu cajado para combater toda e qualquer forma de clericalismo que inferiorizasse o laicato. Aos 75 anos, como manda a Sé Apostólica, pediu dispensa do pastoreio de sua diocese. Todavia, nos seus últimos 15 anos, com discrição acompanhou com suas fervorosas e constantes orações a vida de sua igreja e o ministério de todos os que assumiam o projeto do Reino de justiça, amor e paz, inaugurado por Jesus. Agora, perdemos o bispo irmão, pastor e profeta, mas ganhamos o Santo dos Operários! A sua bênção!

Medoro de Oliveira