Esta coluna foi escrita ainda sob a forte emoção que emana da presença e comportamento do nosso Papa Francisco durante a recente Jornada Mundial da Juventude. Durante inesquecíveis dias o Papa sul-americano tomou atitudes e disse palavras que só confirmam a esperança cada vez maior que em seu pontificado será marcado pela recuperação e aprofundamento do Concílio Vaticano II.

Num sinal claro nessa direção, uma das primeiras medidas do Papa Francisco, balizando mais uma vez a linha que parece pretender imprimir em seu pontificado, foi o anúncio da canonização de João XXIII, juntamente com João Paulo II. Certa imprensa, infelizmente a mais difundida, andou publicando notas de estranheza sob a alegação de que não se conheceriam milagres atribuídos ao chamado Papa Camponês. Com isso, mostram desconhecer os autênticos milagres ocorridos durante o pontificado de João XXIII, a começar pela sua surpreendente eleição na época.

Logo após assumir ele convocou o Concílio Vaticano II, a que destinou a tarefa de “mostrar ao mundo a face humana de Deus”. Que milagre atribuído a alguns dos recentes santos da nossa Igreja terá sido mais importante que esse? Sim: “mostrar ao mundo a face humana de Deus”.

O que significou isso? Confirmar que Deus, através de seu Filho, nos vê a todos os humanos (e as demais criaturas por que não?) como seus filhos verdadeiros. Nos levar a entender que todos e cada um somos irmãos, incluindo aí todos os seres e a própria natureza. Nos comprometer a entender e agir para que nossos irmãos mais sofridos, os pobres, tenham acesso a vida em plenitude. Construir, enfim, o Reino de Deus aqui na terra.

Ao decidir a tão demorada canonização de João XXIII, o Papa Francisco, cuja própria escolha do nome recaiu naquele que recebeu de Deus a missão de reconstruir Sua Igreja, também num momento da história em que o desencanto imperava, mostrou uma escolha. Ele sabe e já definiu seu caminho. Abriu mão (como se confirmou em sua presença entre nós) do luxo e da pompa ao anunciar “acabou o Carnaval”. Escolheu se misturar ao povo, envolver-se com as pessoas, viver como os homens e mulheres comuns, fazendo parte de seu cotidiano.

O Papa Francisco com sua postura, sua simplicidade, suas opções (pelos jovens, pelos pobres, pelas crianças) se mostra profundamente humano. E, ao mostrar essa profunda humanidade realiza o que João XXIII pregou: mostra ao mundo “a face humana de Deus”. Resgata e cria condições concretas para o aprofundamento do espírito do Concílio Vaticano (a verdadeira Constituição em vigor da nossa Igreja) e confirma que Deus, que através do Espírito Santo, surpreendeu ao mundo na virada dos anos 50 para 60 do Século XX, com a escolha de João XXIII e da Igreja do Concílio Vaticano II, demonstra mais uma vez e com muita firmeza, que a escolha (surpreendente para a maioria) de um Papa da nossa tão sofrida América do Sul, nunca esquece de seus filhos.

O Papa Francisco, sucessor de São João XXIII e de São Francisco (por que não?) mostra a todos nós a face humana do Pai e nos convoca com suas atitudes e palavras simples e sábias a reconstruir a Igreja de Cristo e a construir o Reino de Deus aqui na terra. Aí, só nos resta repetir Frei Betto e dizer: “Bem-vindo Papa Francisco! Bem vinda a sua ousadia evangélica de entrar no Brasil como Jesus em Jerusalém (...) Bem vindo à opção pelos pobres, à denúncia da corrupção dentro e fora da Igreja (...) Bem-vindo ao colocar mais água no feijão de todos os comprometidos com a justiça social”.

Ou ainda:  Bem-vindo à Igreja “advogada da justiça e defensora dos pobres diante das intoleráveis desigualdades sociais e econômicas que clamam ao céu”, como enfatizou o Papa repetindo que já havia escrito no Documento de Aparecida. Não mais uma Igreja que, sob o pretexto de “não se meter com a política”, se aninha à sombra dos ricos e poderosos, cala a voz de seus profetas, prega a cruz de Jesus mas se recusa a carrega-la, por considerar difamações e perseguições uma maldição, e não uma bem-aventurança”. Muito bem-vindo Papa Francisco. Filho do Vaticano II, da face humana de Deus, irmão dos pobres, dos jovens e das crianças, nosso irmão tão esperado e querido.

Que os seus exemplos iluminem a toda a Igreja! Que seus passos e palavras ecoem e se reproduzam por todos os que formam o imenso e esperançoso povo de Deus!

Medoro de Oliveira