O tempo do Advento é para a Comunidade Cristã o tempo da Esperança. Aliás, esta é uma dimensão essencial da experiência cristã. A cada dia suplicamos na oração do Senhor: “Venha o teu reino!” Em cada missa clamamos: “Vem, Senhor Jesus”. Ora, o tempo do advento nos é dado a cada ano, com os textos bíblicos e litúrgicos impregnados de imagens que falam das Promessas de Deus e da ansiosa expectativa do povo, da manifestação da sua VINDA no Verbo que se fez carne, para confirmar-nos nessa Esperança e na luta que desta nasce por um mundo de irmãos. “Somos guiados pela íntima certeza de que do tronco cortado sairá um broto; frágil, mas coroado pelo Espírito capaz de recriar o mundo a partir do seu próprio fracasso em busca da harmonia primordial” (cf. Is 11,1-10), conforme recorda o Apostolado Litúrgico.

Nesses dias essa experiência se intensifica na Novena do Natal, que retoma a milenar tradição eclesial de consagrar os últimos dias do advento à preparação para a grande festa. Celebrada especialmente nas famílias e nos grupos, em solidariedade com os doentes e com os mais pobres retoma o sentido de espera ansiosa pela vinda do reino e assume de modo mais ardoroso a atitude da vigilância da fé, pois o Senhor Jesus, no dia a dia e de forma velada cruza, a todo momento, nosso caminho, em meio a tudo quanto acontece, em cada pessoa, especialmente, no necessitado, no empobrecido, no excluído, “pois eu estava com fome, e me destes de comer” (Mt 25,35). A riqueza dos demais ritos e símbolos nos remete igualmente ao encontro pessoal com o grande Irmão Menino que vem para nos salvar e libertar a humanidade de toda marginalidade.

A oração cristã, nesse tempo encharcado de esperança, nos engaja na luta contra toda marginalidade, exclusão e violência. Assim, nos últimos artigos procuramos refletir sobre os desafios e as lutas quanto às pessoas portadoras do vírus da AIDS e  dependentes das drogas. Mas, ao nosso redor grita igualmente por vida com dignidade e fraternidade as dezenas e dezenas de adolescentes em situação de prostituição, as adolescentes gestantes vítimas do machismo que reproduz os ardis que mal disfarçam formas de opressão. Estas, ao lado da prostituição de tantas mulheres e trasvestis da avenida do Contorno,  da BR 393 e do início da Condessa. Verdadeiras escravas dos tempos modernos em situações degradantes de vida. Um mínimo de atenção solidária resgata de imediato a auto-estima que leva a formas de vida profissional mais dignas.

Interpela à nossa caridade social o testemunho da Esperança para os adolescentes vítimas de incesto para serem garotos e garotas de programa na busca do sustento familiar, nas caladas das noites em Itaipava. Estes nunca podem vir às escolas nas segundas feiras, pois estão cansados. Que cruel enfermidade social! Retomo o desafio do crack, cujo trafico é dos maiores empregadores das novas gerações. São as vítimas também da violência policial que já tirou de circulação mais de 2% da população da cidade. Isso nos faz intuir a necessidade de uma unidade prisional para recuperação de nossos irmãos trirrienses: é um imperativo à fraternidade da cidade que se orgulha do melhor índice de desenvolvimento do país.

Nesse horizonte da afirmação da Esperança fomos nesta semana, impactados pela violência contra Dom Pedro Casaldáliga, que teve que “fugir”, qual a família de Jesus, ameaçado de extermínio, por se colocar durante quatro décadas contra o extermínio dos Xavantes, no Araguaia. Exemplo de luta que nasce da Esperança coincide paradoxalmente com a celebração dos 64 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ainda nesse contexto, a morte do grande Oscar Niemayer, um ateu que viveu lutou por viver com fidelidade a vontade de Deus, no Evangelho do Amor e da Justiça. (Eu tive a perda de meu irmão Ricardo Luiz de Souza Guedes, o querido Cacá, vítima de acidente trágico; dor cruel que remete igualmente à Esperança) Fatos que corroboram a necessidade de fazermos da esperança a fonte propulsora de nossa solidariedade libertadora.

As celebrações penitenciais e a possibilidade de confissões individuais em preparação às solenidades do Natal devem suscitar em nós tal experiência da bondade e compaixão de Deus em nossas vidas, a ponto de nos re-lançar na construção do mundo novo, re-inventado por Jesus, em que a vida seja abundante, bonita, feliz e fraterna para todos. Eis pois, o tempo forte de cultivo da esperança, fortalecimento da fé e da vida cristã e convocação a todo tipo de luta em favor da vida e da fraternidade. Do começo ao final, uma bem-aventurança de Jesus nos acompanha: felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! (Mt 5,6). Antecipo assim, votos de um Natal abençoado de vida com qualidade, amor, paz e felicidade para todos!

Medoro de Oliveira