
No domingo passado iniciamos o Tempo do Advento, período de quatro semanas que antecede o Natal. Nele, a sagrada liturgia procura, à luz da plenitude dos tempos, nos inculcar o sentido da esperança. Esta, a esperança, é uma das características fundamentais do cristianismo. Sem ela a existência humana não teria sentido: seria mero desespero. Isso porque, diz o apóstolo Paulo, "a esperança não engana, pois o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).
A esperança cristã nasce da certeza de que o Reinado de Deus já está acontecendo no meio da humanidade. Não obstante as nossas fragilidades, as situações de miséria, injustiça, exclusão e violência. O Espírito Santo vai conduzindo a história humana na direção daquela Plenitude que Deus-Pai sonhou para todos os seus filhos e filhas, para todo o universo, e que se encontra no seu Filho Jesus (Cl 1,19-20). É a esperança que alimenta a nossa existência e nos faz, como Abraão, "esperar contra toda desesperança” (Rm 4,18).
A esperança é pois a dimensão essencial da vida cristã, que nos impulsiona a seguir, mesmo quando tudo ao nosso redor parece desmoronar e não ter mais sentido. Para que a esperança seja a propulsora do nosso existir é indispensável vê-la e senti-la como graça que já nos foi dada por Cristo. Não é preciso mais conquistá-la. Ela já está dentro de nós. Basta perseverarmos nela: "Na esperança, nós já fomos salvos” e "é na perseverança que aguardamos o fruto que dela virá” (Rm 8,24-25).
O Advento deveria ser, segundo as palavras do teólogo José Lisboa M. de Oliveira, “o tempo da Igreja que realiza o memorial da esperança cristã. Preparando-nos para celebrar o natal de Jesus, "nossa esperança” (1Tm 1,1), este período litúrgico deveria, por meio de suas celebrações e reflexões, levar os cristãos e as cristãs a serem mais esperançosos. Infelizmente boa parte do povo cristão ainda vive na desesperança. Sinal evidente disto é a corrida desesperada por milagres e curas. É a infinita carga de promessas e o consumo interminável de "kits de salvação” (medalhas, santinhos, frascos de água benta e de óleos etc.) vendidos nos santuários, igrejas e livrarias religiosas, católicas, neo-pentecostais e exotéricas.
Esta falta de esperança leva ao descompromisso e à indiferença. Leva ao individualismo religioso: cada um e cada uma querendo se salvar sozinho. Para se salvar sozinho quer sempre levar vantagem sobre os outros. O máximo que fazemos são alguns atos assistencialistas, como, por exemplo, distribuição de comidas, roupas e cobertores em determinadas ocasiões. Mas, nos recusamos a exercer a cidadania e a participar ativamente da vida social, como nos pediu o Concílio Vaticano II. E sem este tipo de participação e de engajamento não há como mudar os destinos do mundo.
É verdade que o Reinado de Deus já está acontecendo, mas o Pai quer que, pela esperança ativa, apressemos a sua chegada e a sua plena realização (2Pd 3,12). E a humanidade tem o direito de receber dos cristãos e das cristãs um testemunho concreto de esperança (1Pd 3,15). E este testemunho concreto não acontece por meio de palavrórios, de rezarias e de esmolinhas, mas da participação ativa em projetos de justiça e de solidariedade. De fato, como nos ensina São Tiago, a fé sem ações concretas é um cadáver (Tg 2,26)”.
Olhando o mundo que nos rodeia, mais concretamente a nossa cidade, os bairros de nossa paróquia, deparamo-nos com a droga das drogas. Como anunciar aí, especialmente às novas gerações a Esperança? O tráfico de drogas no mundo movimenta, por ano, 400 bilhões de dólares. Há cálculos que dobram o valor. Os dados são do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. O consumo de drogas mata, a cada ano, 200 mil pessoas. O Brasil é, hoje, o segundo maior consumidor de cocaína, atrás apenas dos Estados Unidos. O número de usuários e dependentes aumenta, o tráfico dissemina a violência, as medidas repressivas não surtem efeito.
Encontrar uma solução adequada não é fácil. Lido no dia a dia de minha paróquia com dependentes químicos, ouvindo suas dores, testemunhando a covardia policial que só pega os pobres indefesos e constato que lamentavelmente é inútil manter, no Brasil, a atual legislação proibitiva e repressiva. Ela só favorece o narcotráfico e os policiais corruptos. Compartilho da opinião de muita gente séria, como por exemplo Frei Betto, de que a descriminalização do consumo parece uma medida humanitária. Todo dependente químico é um doente e precisa ser tratado como tal. Mas como evitar que o consumo não anabolize a assombrosa fortuna dos traficantes? Ainda que se mantenha a proibição das chamadas drogas pesadas, em geral caras, como estancar a disseminação do crack, mais barato e tão devastador?
Há uma questão de fundo – como lembra Frei Betto - que merece ser aprofundada por todos os interessados no problema: por que uma pessoa usa drogas? O que a motiva a buscar uma alteração de seu estado normal de consciência? Por que ela experimenta sensação de felicidade apenas sob efeito de drogas?A droga é um falso sucedâneo para quem carrega um buraco no peito. Esse buraco resulta do desamor e das frustrações frequentes numa sociedade tão egocêntrica e competitiva.
Uma cultura que se gaba de ter fechado o horizonte às utopias, a "outros mundos possíveis”, às ideologias libertárias, ao sonho de que, "daqui pra frente, tudo pode ser diferente”, encurrala, sobretudo os jovens, em ambições muito mesquinhas: riqueza, fama e beleza. Como diz Jesus, "onde está seu tesouro, aí está seu coração” (Mateus 6, 21). Muitos que não têm a sorte de ver seu sonho tornado real, sabem como fazê-lo virtual... E ainda que disto não tenham consciência, estão gritando a plenos pulmões ter ao menos uma certeza: a de que a felicidade reside na subjetividade
O Advento, tempo da esperança, nos convoca a abraçar essa causa. A Igreja não só mobiliza fiéis para a Pastoral da Sobriedade e suas casa de recuperação – como o nosso Sítio Bom Pastor, dirigido pelos abnegados Gessy e esposa. Ela convoca todos os cristãos e pessoas de boa vontade a trabalhar os vários aspectos e níveis do problema. A ser testemunhas da esperança nesse mundo tão duro e triste. A Esperança não rima com tristeza. Esperança rima com alegria (1Ts 2,19-20). Precisamos, pois, devolver a alegria ao nosso redor, nesse tempo do Advento: "Fiquem sempre alegres no Senhor! Repito: fiquem alegres! Que a alegria de vocês seja notada por todos. O Senhor está próximo. Não se inquietem com nada” (Fl 4,4-6).
Medoro de Oliveira