
Estamos, nesta coluna, dialogando nessas duas últimas semanas sobre o Sínodo da Amazônia que acontecerá no Vaticano de 06 a 27 de outubro, convocado pelo Papa Francisco. Depois de termos buscado explicitar os seus objetivos fundamentais, estamos tentando vislumbrar sua abrangência. Ainda na semana passada buscamos uma síntese sobre o que chamamos o “rosto dos povos da Amazônia”. Importa, agora, em comunhão com o REPAM-Rede Eclesial Pan Amazônica, sublinhar que terá lugar no debate do sínodo o camponês e sua família que se apropria e utiliza os recursos naturais da várzea, tendo como pano de fundo o contínuo e cíclico movimento de seus rios.
Os ribeirinhos, pescadores da Amazônia, também conhecidos como camponeses das várzeas, sofrem com a presença dos pescadores comerciais, predadores dos recursos que já se tornaram escassos em determinadas regiões. Os povos da floresta, camponeses da terra firme, nas suas mais diversificadas categorias (seringueiros, indígenas e quilombolas), extrativistas e coletores por excelência, sobrevivem do que a terra e a floresta lhes dão generosamente.
Os ribeirinhos são, pois, os agricultores familiares que cultivam pequenas porções de terras com técnicas tradicionais dos seus ancestrais, classificadas como agroecologia familiar por corresponder a um modo de vida de inter-relação e interdependência com a terra e a natureza. Esses povos cuidam da terra e a terra cuida deles na mesma proporção. O modo de vida desses povos baseado no “bem-viver”, entretanto, encontra-se ameaçado pelos grandes projetos econômicos, pelo avanço do latifúndio e pelo permanente processo de desmatamento da floresta.
A realidade das cidades dos nove países que compõem a Pan-Amazônia, Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Bolívia, as Guiana Inglesa, Guiana Francesa, Suriname, além do Brasil, com seus desafios e perspectivas também serão abordadas no sínodo. As cidades da Amazônia têm crescido muito rapidamente e recolhido muitos migrantes deslocados de forma compulsória, empurrados para as periferias de grandes centros urbanos que avançam floresta adentro. Na sua maioria são povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas expulsos pelos garimpos e mineradoras, encurralados pelas madeireiras, e machucados nos conflitos agrários e socioambientais resultantes da omissão falaciosa do Estado que tem adotado um processo acelerado de limpeza e esvaziamento de áreas estratégicas de grande interesse econômico cobiçadas por empresas nacionais e internacionais.
As grandes riquezas produzidas na Amazônia e a vastidão de seus bens econômicos são negados à maioria de seus habitantes, o que favorece a predominância das desigualdades sociais, econômicas, culturais e políticas. Nessa perspectiva as cidades representam uma realidade marcada por grandes contradições: de um lado, uma vastidão enorme de terras e florestas. De outro lado, muita gente, multidões inteiras, de empobrecidos no campo e nas cidades, sem terra, sem moradia, sem acesso aos direitos básicos.
Concluo a nossa coluna convidando o leitor amigo à oração do Sínodo da Amazônia, como um primeiro passo de cristãos-cidadãos para com nossos irmãos nortistas e sua terra:
Deus Pai, Filho e Espírito Santo, iluminai com a vossa graça a Igreja que está na Amazônia. Ajudai-nos a preparar com alegria, fé e esperança o Sínodo Pan-Amazônico: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Abri nossos olhos, nossa mente e coração para acolhermos o que vosso Espírito diz à Igreja na Amazônia. Suscitai discípulas e discípulos missionários, que, pela palavra e o testemunho de vida, anunciem o Evangelho aos povos da Amazônia, e assumam a defesa da terra, das florestas e dos rios da região, contra a destruição, poluição e morte. Nossa Senhora de Nazaré, Rainha da Amazônia, intercedei por nós, para que nunca nos faltem coragem e paixão, lado a lado com vosso filho Jesus. Amém!
Medoro, irmão menor-padre pecador