
Se não em todas as horas, situações, atitudes, pelo menos nas horas mais difíceis o melhor caminho é buscar inspiração nos melhores, nos verdadeiramente bons, nos que deram e dão os melhores exemplos. Digo isso porque nossa comunidade vive um momento de tristeza, de uma dificuldade em que minha palavra e atitude de pastor precisa como nunca passar firmeza e serenidade.
Aí me lembrei de D.Helder (que se Deus quiser muito brevemente será confirmado como um dos Santos de nossa Igreja, ele que em sua vida entre nós deu tantas provas de sua indiscutível santidade). Não que eu possa ser comparado com ele, mas com o burrinho (que carregou Jesus Cristo em sua entrada em Jerusalém) com o qual o próprio D. Helder se comparou.
A lembrança de D.Helder veio do sonho que ele disse ter tido. Sonhou que o Papa tinha enlouquecido, e ao ficar louco tomou uma série de atitudes de rompimento com o fausto, com o luxo, com as injustiças do mundo e se aproximou definitivamente do compromisso com os pobres. E aí D.Helder diz num dolorido (e doloroso) lamento: “Meu Deus, será que o Papa precisa ficar louco para praticar verdadeiramente o Evangelho de Jesus Cristo?
Hoje, graças a Deus, temos um Papa (Francisco) que pelas palavras e atitudes mostra disposição para enfrentar as injustiças do mundo real ao lado dos mais pobres, sem precisar enlouquecer. E foi assim que cheguei até aqui e pude me perguntar, diante da dor que aperta os corações das mulheres em situação de prostituição na Av. do Contorno: o que diria o Papa Francisco se soubesse do que aconteceu ali, se fosse ele (como já foi em sua Argentina natal – o simples pároco de uma comunidade sofrida, o pároco também das mulheres marginalizadas, o pároco de São José Operário? O que diria Francisco?
Como noticiou a imprensa local, inclusive este jornal, a policia levou presas algumas mulheres e os donos de duas das casas. Quando tomei conhecimento, fui ao encontro daquelas com quem a nossa Pastoral da Mulher Marginalizada – PMM – tem caminhado. Elas foram soltas – após pagar fiança segundo dizem - e aguardam o processo e o julgamento em liberdade. Mas vivem uma triste e dolorosa situação de desencanto, perplexidade, humilhação, falta de perspectiva, insegurança e medo. Dor na alma. Dor moral. Dor social.
A Pastoral da Mulher Marginalizada é ligada ao Setor de Pastoral Social da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Sua missão é ser profética e evangelicamente solidária com à Mulher em situação de prostituição construindo relações humanas e humanizadoras, em defesa de sua dignidade aviltada. A Mística da Pastoral da Mulher Marginalizada é mística do caminho, sempre em movimento se Encarna a realidade das mulheres excluídas, para quem Anuncia a Boa Nova do Evangelho, denuncia toda forma de preconceito e propõe novas relações entre homens e mulheres, com a natureza e com Deus. Seu fundamento é a Prática de Jesus, o movimento do povo de Deus e de tantas mulheres da Tradição Cristã que, mesmo sendo “caladas” tantas vezes, não deixaram de proclamar a libertação das mulheres. É integrada a todas dimensões da pessoa: corpo, afetividade, espiritualidade, mente, relação, etc.
Vivemos num sistema em que o dinheiro sobrepõe-se aos valores humanos e às relações de solidariedade e partilha, e onde a vida é tratada com descaso. A miséria e exclusão social são percebidas como problemas particularizados e não como chagas sociais que devem ser enfrentadas por toda a sociedade, governos, instituições e indivíduos nela inseridos. E como consequência justamente desse sistema econômico que beneficia poucos e exclui muitos, a prostituição se perpetua.
O Escritor José Antonio Pagola narra que a Jesus amava as mulheres e as libertava de todas as prisões a que eram submetidas. No evangelho de João 8, 1-11, conta-se que foi levada para Jesus uma mulher apanhada em adultério para ser apedrejada. Os anciões já havia dado a sentença para aquela mulher: apedrejá-la até a morte. Mas eles queriam testar Jesus. O texto narra uma conclusão comovedora, depois que os homens se retiram um a um, após as palavras sábias de Jesus “quem não tem pecado atire a primeira pedra. A Mulher não se move, segue ali, no meio, humilhada e envergonhada. Jesus fica só com ela”. Jesus, então olha pra ela com ternura e respeitosamente diz: ninguém te condenou? ’A mulher que acabara da escapar da morte, responde atemorizada ‘Ninguém, Senhor’. As palavras de Jesus são inesquecíveis. Jesus confia nela, quer para ela o melhor e anima-a a não mais pecar, e de seus lábios não sai nenhuma condenação” (PAGOLA, 2007 p 22).
Nos relatos das mulheres atendidas pela Pastoral da Mulher Marginalizada estão histórias de privações, de falta de perspectivas, de violência. O Papa Francisco, assim como a mística da tradição cristã, estenderia suas mãos para essas filhas de Deus, e ao se solidarizar com elas, condenaria toda a violência a que são submetidas. O ocorrido na Av. do Contorno não é fato isolado. É triste retrato da lógica do sistema anti-humano (portanto) anti-cristão em que vivemos. E, sendo assim, não permite que fechemos os olhos fingindo que é normal. É uma lambada a nos lembrar que o Reino de Deus aqui na terra ainda não foi construído e exige de todos nós empenho e compromisso, como o trabalho desenvolvido pela Pastoral da Mulher Marginalizada.
Medoro de Oliveira