
A Celebração de São Sebastião, no dia de ontem, inaugurou em nossa cidade as festividades jubilares dos 90 anos da primeira paróquia trirriense, sob o título desse mesmo glorioso mártir. São Sebastião é também o padroeiro de nossa Diocese de Valença, que celebra em 25 de março, também, os 90 anos de sua criação. Não se trata de uma mera coincidência, mas de duas intervenções salvíficas de Deus, quando nossa região sofria suas transformações econômicas sociais que repercutem até nos nossos dias. O jubileu deve, por isso mesmo, ser um tempo de louvor, ação de graças e igualmente de reparação social dos pecados do passado e do presente.
O nosso médio vale do Rio Paraiba do Sul foi o berço da cultura cafeeira; foi a capital econômica do país naquele rápido ciclo, que arrisco chamar de uma economia equivocadamente efêmera, devastadora e fratricida. Efêmera pois de curta duração, quando assistimos hoje a miséria dos bisnetos e trinetos dos barões do café. Bastou a mudança inglesa da economia para assistirmos em poucas décadas a derrocada dos senhores dos cafezais. Economia também devastadora do eco-sistema com a destruição da mata atlântica. E fratricida, pois foi gerada pelo braço escravo, sob o regime da tortura e da morte.
É um equívoco cultural ostentar uma história sob o cognome de Vale do Café, quando deste a sociedade herdou a pobreza, hoje materializada nos belos casarões coloniais em franca decadência. O grande musicista Mário de Andrade sugeriu Vale dos Tambores, em homenagem a Quilombo de Barão de Vassouras, em que 400 negros – adultos, jovens, velhos, crianças e mulheres – resistiram a invasão branca tocando 400 tambores. Isso porque a única riqueza que permaneceu é o samba, música genuinamente brasileira nascida em nossas terras. Aqui é o berço do samba! Ainda é tempo de uma de nossas cidades abraçar o Festival de MPB, sem sede desde a repressão militar.
Seguiu àquele ciclo a tímida industrialização da região, ao lado das fazendas que se viram obrigadas a optar pela pecuária, com toda a crise e ambigüidade que essa economia leiteira comporta. Três Rios floresce, no então município de Paraíba do Sul, como cidade com vocação industrial. Ideal que não tardará a acontecer. Mas, sem dúvida, o pioneirismo libertário da Condessa do Rio Novo congregou num primeiro momento os pecuaristas e estes em sua religiosidade rural vão construir a Igreja para São Sebastião, protetor contra as pestes. Logo-logo a vila de Entre Rios vai, na sua dinâmica própria, exigir sua paróquia, com seu respectivo pároco.
Dali, quatro décadas foram suficientes, para se erigir uma nova paróquia em que o padroeiro fosse agora, ícone do povo operário. De Entre Rios a cidade-município vai-se chamar Três Rios, pois de terras de fazendas entre rios, torna-se cidade industrial emergente numa localização geográfica especial – entroncamento rodo-ferroviário – para qual conflui imigrantes do três pontos do norte, sul e centro-oeste do país, como confluem os seus três rios, para um único delta dessa grandeza. Passada a crise da recessão econômica nacional, o município retoma nos últimos anos a sua vocação industrial. E à paróquia jubilar em seus 50 anos é novamente chamada à sua missão Josefina.
O tempo recente da crise que já vai-se superando, exigiu a criação da Paróquia de Santa Luzia, a Virgem-mártir do belos e profundos olhos, que deverá abrir os olhos do poder público, do terceiro setor e da sociedade civil organizada para um progresso econômico que traga incluso o desenvolvimento social e a maturação cultural. E assim, cada um dos três padroeiros podem mesmo serem vistos como ícones de uma comunidade de fé nos seus diferenciados momentos históricos. São Sebastião protege e inspira a nova aristocracia rural a novas relações de trabalhos. São José Operário protege e inspira o povo trabalhador na defesa da justiça e da paz. E Santa Luzia protege e inspira o conjunto da sociedade na busca do desenvolvimento para todos
E o povo jubilar como responde a essa graça? É o que veremos na próxima semana.
Medoro, irmão menor – padre pecador.