O Brasil celebra oficialmente o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, todo dia 20 de novembro, desde 2011. Mais que um feriado nacional, a data faz referência à Zumbi dos Palmares, mártir quilombola e herói da resistência negra. Zumbi era o líder do Quilombo dos Palmares, situado entre os estados de Alagoas e Pernambuco, no Nordeste, e foi morto por bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho, em 1695. A sua luta se prolonga aos nossos dias junto ao clamor de milhares de vidas oprimidas, exploradas, excluídas e descartadas.

Já se vão mais de 320 anos a luta dos afrodescendentes para conquistar o espaço a que tem direito na sociedade e na Igreja. Daí, essa data é um  símbolo importantíssimo da resistência dos negros, bem como da luta por direitos que seus descendentes reivindicam. E como o Papa Francisco instituiu o 33º Domingo Comum da Liturgia Católica -  que nesse ano cai no dia 19 de novembro –, como o Dia Mundial dos Pobres, a Pastoral Afro-Valenciana, decidiu antecipar as comemorações para denunciar a situação de pobreza que vivem a maioria dos afro-brasileiros.

“Não amemos com palavras, mas com obras”, exorta Francisco na convocação do Dia dos Pobres. É hora de passar das análises e dos discursos para ações afirmativas e concretas, que deem resultados positivos e que possam contribuir efetivamente na criação de novas condições que estabeleçam um processo de superação das desigualdades. E a Pastoral Afro-brasileira antecipa tal apelo, como aparece, pelos exemplos, nas conquistas obtidas por meio de dispositivos legais, como a punição por racismo, a lei das cotas raciais e, em especial, a lei 10.639/2003, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira nas escolas.

Vale recordar nessa coincidência de datas que a Pastoral Afro-Brasileira, que foi oficializada como organismo oficial da Igreja do Brasil em 1998, começou a ser idealizada na década de 1970, como o agir da Igreja que teve início quando os negros “arrancados” da África chegaram ao Brasil como escravos. Mas foi em 1979 que a CNBB convocou um grupo de cinco sacerdotes negros para elaborar um documento para ser apresentado na Conferência de Puebla, realizada em 1979, no México. Nesta, nossos bispos perceberam a necessidade de uma atenção pastoral para com os grupos culturais indígenas e afro-americanos.

Em 7 de setembro de 1981, foi criado o Grupo de União e Consciência Negra e, durante uma celebração eucarística na Catedral da Sé, em São Paulo (SP), um grupo de padres, pede, em alta voz, a criação da Pastoral Afro-Brasileira. Neste evento inaugural a nossa Diocese de Valença se fez presente nas pessoas de seus delegados: Pe João Jose da Rocha, Pároco de Paraíba do Sul, Nadir de Paula, coordenadora-fundadora da Pastoral Negra, também de Paraíba do Sul e o Mestre Diolésio, Presidente do Associação do Grupos de Capoeira de Três Rios.

O próximo passo importante foi dado com a Campanha da Fraternidade de 1988, com o tema Ouvi o clamor deste Povo, focada na população afrodescendente. Aqui ganha novo e decisivo impulso, e continua até hoje, a organização de grupos e variadas atividades. Em 1998, a Pastoral passou a fazer parte, de forma oficial, da CNBB. E finalmente, em 2003, graças ao documento 85, a Pastoral passa a integrar a estrutura da CNBB, como espaço de ação e conscientização da Igreja e da sociedade para a realidade da população afro-brasileira.

O Padre Jurandyr, grande articulador nacional da Pastoral Afro, afirma ser essa pastoral “a solicitude da Igreja para com os Afro-brasileiros e sua condição de discriminação e exclusão”. Hoje nos desafia o extermínio de jovens, dos quais 70% são negros, bem como as perdas dos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários, em que os pobres numericamente mais atingidos são os pobres. Logo é prioridade da Pastoral Afro a atuação em relação aos direitos fundamentais da cidadania para todos, sobretudo para aqueles que vivem à margem da sociedade, em virtude de sua cor e etnia.  É também uma forma de combate ao racismo, ao preconceito, à xenofobia e outras formas de discriminação e pobreza. O Dia do Pobre, coincidentemente à véspera do Dia do Negro, reafirma a missão não só cultural, mas urgentemente social da evangelização da comunidade afro-brasileira.

Medoro, irmão menor-padre pecador