Mais uma vez estamos às portas de mais um carnaval. Muitos anseiam por um merecido feriado prolongado; muitos querem e precisam descansar; tantos outros não vêem a hora de “entrar na avenida”; os blocos e as escolas de samba intensificam seus preparativos; outros aproveitam para um retiro espiritual; uns poucos têm a oportunidade de trabalhar e ganhar um dinheirinho extra; há quem viaja para a praia, um sítio ou um lugar prazeroso para se distrair,... É a grande festa popular!
    Há, todavia, frequentes avaliações negativas devido aos excessos: abuso no alcoolismo, gastos excessivos com as fantasias, investimentos públicos por demais generosos - devido às carências sociais, sobretudo nos campos da saúde, educação, saneamento básico e moradia -, banalização e exploração sexual; exploração e abuso dos menores, barulho excessivo – não só nas madrugadas -, degradação dos espaços públicos, perversão das novas gerações, degradações familiares, mundaneidade.
Desta festa, independente das avaliações positivas ou negativas, poucos sabem da sua origem remota. Síntese das culturas indígenas, africanas e lusitanas, o carnaval nasceu nos espaços paroquiais. Sim. Às vésperas da quarta-feira de cinzas, quando se iniciava a quaresma, tempo penitencial, de oração e sacrifícios, em preparação à grande festa da Páscoa do Senhor Jesus. Era comum se promover uma festança com músicas, danças e muita carne. Daí, o carnaval!
Todo e qualquer antropólogo avalia positivamente essa festa carnavalesca por integrar as dimensões profana e religiosa de todo o ser humano. Como é positivo as famílias virem às ruas se confraternizarem. Rompem-se as paredes do seu próprio lar para compartilhar, absorver e gerar a alegria de viver! Aliás, Deus criou a vida para ser bonita, feliz e fraterna! E mais: os sambas-enredos, as fantasias, as alegorias encarnam igualmente a utopia de dias melhores!
Poderíamos dizer que o carnaval – tomando uma expressão recente do Papa Francisco – deve, pois ser vivido como um tempo de esperançar! E nisso reside a essência de tamanha festa popular: confraternização, alegria e esperança! As festas, os momentos lúdicos e gratuitos são canteiros próprios para se semear e cultivar os sonhos de um mundo fraterno, solidário, sem discriminações e exclusões. Recordando o vinho novo de Jesus na Festa de Caná, na Galileia, até a cerveja – com moderação, sublinho – tem o seu lugar.
Os lamentáveis abusos do alcoolismo, do sensualismo e outros não deveriam ser motivo para a ausência e a condenação por parte dos cristãos. Ao contrário, ali deveríamos estar para dar o testemunho da sobriedade, do amor, da alegria e da esperança, próprio dessa festa nascida para apontar, catequisar que, para além da penitência quaresmal do quotidiano de nossas vidas, nos aguarda a alegria pascal, na solenidade máxima de nossa fé e para além do aparente fim de nossas vidas: a ressurreição!
A consciência de que o Carnaval nasceu dentro de nossas igrejas como um alegre sinal da alegria do céu, deve despertar nossa atitude missionária que ajude os foliões a viver uma festa mais sadia, sem os abusos, exageros e pecados que lamentavelmente temos pacificamente assistido. Trata-se de um campo de missão frente o qual não podemos nos omitir. Quem opta por um retiro espiritual nesses dias deve ter como prioridade orante a santificação dos ambientes carnavalescos. Vamos, pois, à pista com nossa presença física ou com nossas orações. Sejam os leigos e leigas, sal da terra e luz do mundo!
                                 Medoro, irmão menor-padre pecador