
“Eu te louvo, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado” (MT 11,25-26).
Antes de iniciar este primeiro artigo na coluna que o Entre Rios Jornal gentilmente publicará a partir desta edição, gostaria de agradecer a jornalista Luana Lazarini pela matéria de apresentação feita por ela e publicada neste espaço na edição passada.
D. Helder Câmara costumava explicar os muitos aplausos que recebia, dizendo que tais aplausos não eram pra ele. Ele se comparava ao “burrico” que transportava Jesus Cristo, no Domingo de Ramos, pelas ruas de Jerusalém. Os aplausos, dizia, não são para o burrico. São para o Cristo que está montado nele.
Neste espaço que ocuparei semanalmente, quero ser um “burrico”, que o Espírito Santo utilize para transmitir para a comunidade trirriense as Boas Notícias de Deus, o Evangelho.
O Evangelho, dirão muitos, já é do conhecimento geral. Será? Se não existem dúvidas sobre o que Deus nos quer comunicar, como explicar um mundo tão distante do Reino Dele? O Reino, todos sabemos, é a utopia de um mundo do jeito que Deus quer.
E no caso particular dos católicos, como explicar a crise da Igreja? Abraçar o Ecumenismo por um mundo de irmãos ou concorrer com as novas tendências religiosas preocupados com a prosperidade individual de seus prosélitos e jamais com a libertação social, coletiva? Uma Igreja para o culto ou um culto para uma Igreja dos pobres?
Não me julgo capaz de responder a essas perguntas, mas confio na luz do Espírito Santo que há de usar este “burrico” para trazer o Evangelho ao dia-a-dia da comunidade de Três Rios e associar os fatos de nossas vidas concretas às Escrituras Sagradas.
Neste primeiro artigo, e na linha que está sendo proposta, lembro o Concílio Vaticano II. Estamos iniciando, com toda a Igreja, as celebrações dos cinquenta anos desse evento eclesial. Ele, uma espécie de nova Assembléia Constituinte da Igreja Católica, foi convocado pelo Papa João XXIII, no Natal de 1961 e concluído em 8 de dezembro de 1965, já no papado de Paulo VI.
A homilia com que João XXIII abriu o Concílio falou de otimismo em relação ao mundo. Falou sobre as urgentes mudanças na expressão da fé, que em nada comprometiam a substância da Verdade Revelada. Sua principal mensagem foi a de que a missão da Igreja é revelar ao mundo a face humana de Deus.
Ligada a essa determinação está a opção preferencial pelos pobres, fruto de todo o envolvimento dos cristãos, principalmente em nossa América Latina e Caribe, com os movimentos de valorização da vida e libertação dos oprimidos, excluídos e descartados.
Esse envolvimento se deu intensamente tanto por parte dos religiosos quanto dos leigos, já que outra conseqüência do Vaticano II foi a valorização dos leigos. Hoje, a crise que se manifesta em todas as esferas da vida, e a crise particular da Igreja – cuja resolução é fundamental para que os cristãos católicos possam participar das soluções da crise geral do mundo – exigem que busquemos no Concílio Vaticano II os caminhos apontados pelo Espírito Santo. Daí, o texto da Apocalipse inspirador desse cinqüentenário conciliar: “Ouçamos o que o Espírito diz à Igreja” (Apoc 2,7).
Como se daria isso aqui em Três Rios? Uma primeira reflexão a que convido os leitores: nossa cidade viveu tempos de crise. Fábricas fechadas, desemprego, deterioração da vida. Os mais atingidos, como sempre, foram os mais pobres. Vive-se um novo tempo. Novas empresas, novos empregos, a esperança de vida melhor está presente. Esperamos que os que mais sofreram nos tempos de crise sejam beneficiados. Tem-se que estudar medidas para que se no futuro tivermos novas crises – e nunca se está livre delas – a conta não seja tão duramente cobrada aos que menos lucram nas boas fases.
Vamos pensar nisso inspirados no Evangelho? Afinal, Jesus Cristo deixou como ordem aos seus discípulos o mandamento novo do amor. “E nisso reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 13,35). Somos uma Igreja a serviço da Vida e da Esperança (cf. Jo10,10).
Se nesse diálogo que hoje iniciamos conseguirmos ajudar um pouquinho a tornar a vida mais bonita, feliz e fraterna, teremos cumprido o objetivo que nos propusemos em resposta à confiança do Entre-Rios Jornal e, sobretudo à missão recebida no batismo: anunciar as Boas Notícias de Deus aos empobrecidos, que mais sofrem nas situações inumanas em que foram jogados!
Medoro de Oliveira