Na semana passada falei sobre a abertura do “Ano da Fé”. Foi na quinta-feira, 11, quando o Papa Bento XVI, circundado por quatrocentos bispos reunidos em Assembléia Sinodal em Roma, para repensar a evangelização para a transmissão da fé, convocou toda a Igreja para, na esteira do XXI Concílio Ecumênico, o Vaticano II – realizado há cinquenta anos -,  enfrentar a desertificação espiritual do nosso tempo. Temos Jesus Cristo e o Evangelho, a única resposta cabal às buscas mais profundas dos homens e mulheres de nosso tempo.

Foi o próprio Papa Bento XVI que, através da Carta Apostólica Porta Fidei, tomou a iniciativa do Ano da Fé, em 11 de outubro do ano passado, dizendo da “necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo” e que  “o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo”. Falando da necessidade de viver, testemunhar e anunciar a fé no Senhor Ressuscitado, Bento XVI diz que é necessário “que cada um sinta fortemente a exigência de conhecer melhor e de transmitir às gerações futuras a fé de sempre”.  Ele espera que “este Ano suscite, em cada crente, o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança”. Assim, “descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada, e refletir sobre o próprio ato com que se crê, é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano”

O Papa, afirma que a fé “solícita em identificar os sinais dos tempos no hoje da história, obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo.” Pois, “aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade é o testemunho credível de quantos, iluminados na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que não tem fim”. Isso implica num exame de consciência e numa tomada de posição diante do mundo, sustentada pela fé. O próprio São Paulo escrevendo aos coríntios dizia: “tendo o mesmo espírito de fé a respeito do qual está escrito: Acreditei, por isso falei, cremos também nós, e por isto falamos” (2Cor 4,13). É a fé que gera a pregação! Se nos falta a fé, nos falta o entusiasmo e facilmente deixamo-nos envolver pelas malhas do cansaço e do desânimo. Torna-se urgente para a Igreja hoje redescobrir a fé; pois é a fé que gera e capacita os evangelizadores de que o mundo hoje tem imensa necessidade!

Não podemos dar a fé como algo que já existe e deve ser apenas incrementado. Hoje, o mundo vive uma crise de fé, que leva as pessoas não só a negar a fé, mas também despreza-la. É necessário redescobri-la e, isso é tarefa de cada um! É tarefa que implica decisão, escolha, e testemunho. Uma decisão e escolha que ninguém poderá tomar em nosso lugar e, testemunho que cabe a cada um assumir e realizar. Implica conhecimento, ou seja, é um caminho que deve levar-nos a aprofundar sempre mais a Palavra de Deus, guardada e transmitida pela Tradição da Igreja. Ilude-se quem acredita que a fé resume-se a um sentimento pessoal de confiança e proteção. A fé vai além, exige conhecimento, aprofundamento, compreensão sempre maior e consequentemente testemunho de vida sempre mais coerente, o qual implica na caridade social!

Bento XVI diz que a fé não pode ficar reduzida à esfera do privado, ao âmbito das decisões pessoais, mas deve, ao contrário, manifestar-se publicamente, nas decisões que interfiram nos relacionamentos pessoais e comunitários e nas decisões políticas, onde a vida e o bem comum estão em jogo. "A fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra de realizar o seu caminho”.

Acolher o convite do Papa Bento XVI, a “procurar a fé” (cf. 2Tm 2,22) e a enfrentar a desertificação da espiritualidade, nas comemorações dos cinquenta anos da abertura do Vaticano II e vinte do Catecismo da Igreja Católica, é uma atitude profundamente coerente com o momento, e, com a herança do Concílio. Se num primeiro momento pode causar estranheza, podemos dizer que ao final, abrir-se e aprofundar-se na fé torna-se uma experiência de profunda alegria e renovação, capaz de nos levar a ser mais autenticamente testemunhas de Jesus Cristo no mundo e no tempo que vivemos.  Seria um reencontro com o Vaticano II e com a celebração pela qual como disse o Papa João XXIII, “o céu e a terra se uniram”.

Medoro de Oliveira