
O Ano da Fé para celebrar o jubileu áureo do Concílio Vaticano II é também um tempo propício para repensarmos a dimensão ecumênica da Igreja e de toda ação evangelizadora. Para nós trirrienses é também apelo para que nos empenhemos em nossas Igrejas pelo diálogo que constrói a unidade, a partir daquilo que é o legado de Jesus Cristo: o evangelho da vida e do amor.
O monge beneditino Marcelo Barros escreveu recentemente um artigo intitulado “A renovação permanente”. Ele abre o artigo com uma frase de Martinho Lutero: "A Igreja reformada deve se reformar permanentemente”, afirmando que essa frase deveria ser recordada por todos no aniversário da reforma Protestante, em 31 de outubro. Para Marcelo Barros neste ano do cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, podemos também comemorar os 50 anos da primeira reunião oficial de bispos católicos em que cristãos de outras Igrejas foram convidados como observadores e participantes.
O Vaticano II, como ele lembra, foi fundamental na mudança da relação entre as confissões diferentes. Antes do Concílio elas eram marcadas pelo afastamento, a falta de diálogo. O Vaticano II transformou irmãos separados em Igrejas irmãs. As consequências disso foram muito importantes não só para as próprias Igrejas, mas para todo o mundo. O diálogo entre os cristãos permitiu que eles se unissem em movimentos como a luta contra o apartheid na África do Sul e pela paz e justiça no mundo. No nosso Continente, a teologia da libertação nasceu ecumênica e foi aprofundada no diálogo entre teólogos/as católicos e evangélicos/as.
Os 500 anos do nascimento de Martinho Lutero, em 1983, foram homenageados por João Paulo II, que afirmou ser Lutero “um mestre da fé para todos os cristãos”. Em mais um passo em direção ao ecumenismo do Vaticano II, em 31 de outubro de 1999, a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial assinaram um acordo sobre a justificação pela fé. O simbolismo da data, a divisão das Igrejas do Ocidente, se juntou ao fato de da justificação da fé ter sido principal ponto na divisão ocorrida no século XVI.
Dando prosseguimento ao inventário dos fatos positivos que marcam essa escalda ecumênica, Marcelo Barros, nos lembra que há menos de dois anos, Bento XVI visitou na Alemanha o mosteiro onde Lutero viveu como monge agostiniano. Lá, em companhia do presidente da Federação Luterana Mundial, o palestino Munib Younan, Bento XVI afirmou que Lutero era um modelo da pessoa de fé que busca permanentemente a Deus, como todos somos chamados a fazer. Hoje, em diversos lugares do mundo, exegetas católicos e evangélicos trabalham e ensinam juntos as Sagradas Escrituras. Teólogos católicos são professores em universidades de teologia luterana e metodista. Ao mesmo tempo, professores evangélicos são mestres em universidades católicas.
Ao final, e sendo absolutamente fiel ao espírito ecumênico do Concílio Vaticano II, Marcelo Barros faz uma reflexão que deveria servir de guia para todos os cristãos: “O modelo de unidade que se deseja para as Igrejas não é o da uniformidade que, de todas, faria uma super-Igreja única e poderosa. Já no século III, Cipriano, bispo de Cartago, ensinava: "A unidade abole a divisão, mas respeita as diferenças”. O Conselho Mundial de Igrejas que reúne 349 Igrejas em uma fraternidade congregacional propõe como modelo de unidade "uma diversidade reconciliada”.
E voltando a Martinho Lutero: “No século XVI, ao pregar que a renovação da Igreja deve ser permanente, Lutero recordava que Jesus nos chama a uma contínua conversão de nossas vidas. A conversão pessoal e comunitária é o melhor caminho da unidade e é o único modo das Igrejas se renovarem e exercerem sua missão de diálogo com a humanidade. Jesus pediu ao Pai que seus discípulos sejam unidos, para que o mundo possa crer (Jo 17, 19- 21)”. Esse assunto interessa a toda a humanidade porque é verdade o que afirmou o teólogo suíço Hans Kung: "O mundo não terá paz, enquanto as religiões não aprenderem a dialogar e a conviver como irmãs e, por várias razões culturais e sociais, isso não ocorrerá se as Igrejas cristãs não derem logo o exemplo e não retomarem o caminho do diálogo e da unidade”.
Medoro de Oliveira