No último dia 7 de outubro a Igreja e a Comunidade afro-descendente celebrou a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens de Cor. Uma tradição de nossa religiosidade popular introduzida em 1640, a partir do Rio de Janeiro e Minas Gerais, pelos colonizadores lusitanos. Foi imediatamente apropriada pelos negros procedentes dos vários países do continente africano.

Sob dura e cruel escravidão abraçaram elementos da religião branca e numa síntese original fizeram da oração do Rosário de Nossa Senhora uma força de resistência com seus rosários ou terços do rosário feitos com as sementes de uma vegetação rasteira que denominaram de “contas de lágrimas”, símbolos de suas lágrimas. Foi o ponto de partida para a primeira organização abolicionista: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens de Cor.

            Esta festa, todavia, foi instituída pelo Papa Pio V em 1571, quando celebrou-se a vitória dos cristãos na batalha naval de Lepanto. Nesta batalha os cristãos católicos, em meio a recitação do Rosário, resistiram aos ataques dos turcos otomanos vencendo-os em combate. Com o Rosário os cristãos contemplavam os Mistérios de Cristo, os quais nos guiam à Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição do Filho de Deus.

A origem do Rosário, por sua vez, é muito antiga, pois conta-se que os monges anacoretas usavam pedrinhas para contar o número das orações vocais. Desta forma, nos conventos medievais, os irmãos leigos dispensados da recitação do Saltério ou dos 150 Salmos (pela pouca familiaridade com o latim), completavam suas práticas de piedade com a recitação de 150 Pai-Nossos e, para a contagem, o Doutor da Igreja São Beda, o Venerável (séc. VII-VIII), havia sugerido a adoção de vários grãos enfiados em um barbante.

Nesse ano a Pastoral Afro-descendente do Triângulo decidiu celebrar essa data que lhe é tão cara, numa reunião conjunta com o Movimento Fé e Política. Na ocasião foram levantados vários desafios para a pastoral: a necessidade de uma liturgia inculturada (missas afros mais freqüentes), discriminação e violência contra a afro-juventude (drogas, prostituição e prisão), marginalização social (pouca presença nos centros de decisão, na política, vida nas periferias e morros), alienação cultural (embranquecimento das modas e dos costumes) e exclusão econômica (serviços secundários pesados, salários baixos).

A partir daí decidimos por promover na próxima quinta-feira, dia 10, um encontro aberto com lideranças do movimento negro para organizar a Semana da Consciência Negra, em preparação ao Dia de Zumbi, 20 de novembro. E isso à luz da proposta da 17ª Romaria das Comunidades Negras a Aparecida, que marca tradicionalmente o início das comemorações do mês da consciência negra para os agentes da pastoral afro-brasileira. Este ano a Romaria em nove de novembro, terá como tema “Celebrar a vida com a Juventude no resgate da dignidade do Povo Negro” e o lema “Na ternura da Mãe Negra celebramos Negritude e Fé”.

E preparando essa reunião nos propusemos retomar o documento conclusivo do 12º Encontro da Pastoral Afro-americana, realizado em Guayaquil, Equador, 20 de Julio de 2012, que publicamos na íntegra:

“Os 250 participantes – dentre leigos e leigas, mulheres, homens, sacerdotes, religiosos e religiosas, diáconos, jovens e bispos – do 12º Encontro de Pastoral Afroamericana EPA, realizado em Guayaquil, Equador, expediram uma mensagem ao final do encontro. Delegados de 12 países do Continente Latino-americano e do Caribe, convocados pelo SEPAC e pela Pastoral Afro-Equatoriana, depois de refletir sobre a realidade do povo afro no continente, e iluminados pela Palavra de Deus e pela presença da Virgem Aparecida e alimentados pela Eucaristia, expressaram:

Seguiremos defendendo os autênticos valores culturais e espirituais do povo Afroamericano e Caribenho, especialmente dos oprimidos, indefesos e marginalizados, diante das forças avassaladoras das estruturas de pecado que se manifestam na sociedade moderna (DAp 532).

Continuaremos apoiando o diálogo entre cultura negra e fé cristã e suas lutas por justiça social, incentivando a participação ativa dos/as Afroamericanos/as e Caribenhos/as nas ações pastorais das nossas Igrejas e do CELAM (DAp 533).

Denunciamos as ameaças em sua existência física, cultural e espiritual, nos modos de vida, nas identidades, na diversidade, nos seus territórios e em seus projetos de vida, que sofre o nosso povo afro em todo o Continente, como consequência da globalização econômica, cultural que põe em perigo nossa própria existência como povo diferente (DAp 90); comprometemo-nos a trabalhar na globalização da solidariedade, urgindo aos governos nacionais, às Organizações dos Estados Americanos e das Nações Unidas que nos apoiem em nossos esforços.

Assumimos a Missão Permanente proposta pelo CELAM com fé, esperança e alegria, que nos permita viver um novo Pentecostes eclesial e social, com a força da juventude, participando nos processos de desenvolvimento, na resiliência e na resistência das mulheres e dos homens, na ternura das crianças e na riqueza dos nossos/as mais velhos/as.

Este encontro de Pastoral Continental está marcado por muitos desafios e grandes esperanças, motivados pelas palavras do Profeta Afro, Sofonias considera que quando o povo se organiza e se deixa guiar por Deus, pode celebrar a festa da vida: “... O Senhor teu Deus está a teu lado como valente libertador! Por tua causa ele está contente e alegre, apaixonado de amor por ti, por tua causa está saltando de alegria, como em dias de festa” (Sofonias 3, 15-17).

Medoro de Oliveira