
Acontecem mais uma vez as celebrações natalinas. As festas familiares, os presentes, os alimentos apetitosos, as cantatas, a novena, o presépio, as liturgias solenes... apontam para a Festa da Vida! Sim. E isso não obstante o cruel drama da miséria crescente, do alto índice de desemprego, das lamentáveis crises ética e administrativas do poder politico - nos seus vários níveis –, do absurdo da violência e a dolorosa e crescente onda da depressão, consequência de uma cultura da perplexidade e da desesperança. A Vida é mais forte do que a morte!
Festa da Vida, sim! Não obstante tamanha onda de negatividade, podemos, em meio aos maiores ou menores sofrimentos, ser homens e mulheres de esperança; podemos ter alegria. Afinal, não é um a loucura do Filho de Deus a sua vinda para o meio de nós. A sua encarnação numa gruta entre animais e pobres pastores inaugura um tempo novo na história e no cosmos. Já não estamos mais a sós, mas o Senhor habita com o seu povo, escolhe o inferno da terra para fazer o seu céu. E ensina a rezar para que se faça essa vontade vivificante de Deus assim na terra como no céu.
Festa da vida, sim! Pois a partir de então nasce uma nova espiritualidade: o encontro com Deus se dá no encontro com os irmãos, especialmente no pobre. O Papa Francisco insiste para que sejamos uma Igreja pobre em saída às periferias geográficas e existências, para ali tocarmos a carne de Jesus Cristo nos pobres, enfermos, sofredores e pecadores. Afinal essa é a grande novidade do Deus Cristão: na encarnação aceitou nascer pobre e filho de uma jovem que num primeiro momento foi vista como “mãe solteira”; conviveu e assentou-se à mesa com pobres e pecadores; e permitiu-se ser crucificado entre dois bandidos.
Festa da vida, sim! Esse caminho de Jesus que passou pela cruz foi confirmado por Deus-Pai que lhe concedeu a ressurreição. A partir de então, não temos outro acesso a Deus-Pai que não seja a humanidade de Jesus, que se prolonga na humanidade crucificada de todos os tempos. Assim a nossa espiritualidade nos conduz ao encontro com o Deus vivo e amigo da vida, que no final dos tempos, no juízo final, se apresenta comprometido com os pobres: “tive fome e me deste de comer, sede e me deste de beber, nu e me vestiste, andarilho e me abrigaste, enfermo ou preso e fostes me ver (...) Todas as vezes que fizestes isso a um menor dos meus irmãos foi a mim que o fizestes (cf Mt 25).
Festa da vida, sim! Que se prolonga na história da humanidade pelo protagonismo dos pobres e daqueles que com suas justas causas se solidarizam. Nesse Natal celebramos Pascoa! A passagem para a vida plena de um irmão que fez de sua vida, vida para todos: Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal Arcebispo de São Paulo, que enfrentou a ditadura de direita que gerou tantas vítimas, por um “Brasil nunca mais” de ditadores homicidas. Profeta da justiça e da esperança! Verdadeiro ícone dos mártires da caminhada pela vida com justiça e paz! E por isso, não deve ser por acaso a sua morte nesse tempo nacional caótico. Esta veio a ser sua palavra mais eloquente para que se resista à corrupção e ao golpe branco que fara a morte precoce e injusta para muitos. Como Jesus, morre para que ninguém morra!
Festa da vida, sim! Entre as múltiplas celebrações natalinas –anteriormente aludidas – que celebram Jesus o Senhor da Vida e Príncipe da paz, termino minha saudação natalina enaltecendo a Comunidade Eclesial de Base de Santo Antônio, no Bairro do Ponto Azul. Nesta sexta-feira, 23 de dezembro, celebram com o bispo diocesano a consagração do altar de sua capela, expressão da força da união que faz a Vida refletir a glória de Deus entre nós. Daqui, pois, minha afetuosa benção natalina aos amigos leitores! Meus votos, nesse Ano Mariano, de todos compromissados com/como a Mãe Aparecida, por uma vida mais bonita, feliz e fraterna para todos!
Medoro, irmão menor-padre pecador