
As celebrações natalinas, em meio ao grande Jubileu da Misericórdia, nos fazem mergulhar no Evangelho da Alegria: Deus amou tanto o mundo que enviou o seu Filho único (...), não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele (Jo 3,16-17). Daí, o programa de vida de Jesus, igualmente Evangelho da Alegria: Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10). Assim fala de si mesmo: O Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19,10).
Para realizar esse projeto de misericórdia, casou com a pobreza: permitiu-se ser filho de uma mãe solteira (Lc 2,26-38), nascer entre os sem-teto e sem-terra (Lc 2,1-7) viver e conviver com os pobres, excluídos e pecadores (cf. entre outros Mt 9,11), morrer entre dois bandidos (Jo19,18) e, no final dos tempos, aparece identificado com os descartados: famintos, enfermos, prisioneiros, andarilhos,... (cf Mt 25,31-46). Um bom resumo da vida de Jesus: O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir (Mc 10,45).
A partir desta sua autoconsciência, Jesus revolucionou o conceito de religião no seu tempo: Quero a misericórdia e não o sacrifício (Mt 9,13). E por isso, na Última Ceia, depois que lavou os pés dos discípulos, ordenou: Dei-vos o exemplo para que façais o mesmo o que vos fiz (Jo 13,15). E, nessa mesma ocasião de despedida, deu a identidade da sua e nossa Igreja: Nisto todos reconhecerão que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros como eu vos amei (Jo 13,35). Somos a Igreja do amor, da misericórdia!
Passados dois mil anos, deve ressoar forte na consciência e no coração de todos os crentes em Jesus, o seu único e novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos tenho amado (Jo 134,34). Em meio a um grande pluralismo de igrejas que se proclamam cristãs, não pode haver disputas e concorrências como que num mercado religioso. Com muita propriedade, expressa o Papa Francisco: “Quem tem fé, não discute religião, mas vive o amor, pratica a misericórdia”.
O Natal é, por isso mesmo, o dia propício para ouvirmos uma vez mais da boca de Jesus: Sede misericordiosos como o Pai é misericordioso (Lc 6,36).
Os pobres, os enfermos, os sofredores, os descartados e os pecadores gritam por nossa misericórdia. Urgem gestos concretos e imediatos de caridade social. Profetiza assim, Dom Pedro Casaldaliga, Bispo Emérito de São Felix do Araguaia: “Só Deus e a fome são absolutos”! Sim. A fome, a miséria não pode esperar. É preciso ir além das doações natalinas, que precisam ser o ano todo.
Mas, diz a sabedoria popular, “não adianta enxugar o chão com a torneira aberta”. A caridade pessoal e grupal exigem novas políticas publicas que garantam a segurança alimentar, a justiça social e trabalho e teto para todos. A misericórdia tem, pois, uma dimensão estrutural, política, econômica. Implica em educar para a cidadania ativa, formar novos interventores sociais. A misericórdia exige para além de dar o peixe (assintencialismo), a ensinar a pescar (promoção humana) e a reter e partilhar o peixe (conscientização).
E isso será de fato misericórdia, se não se tornar instrumento de controle e manipulação dos miseráveis, objetos de poder. O que implica numa profunda experiência pessoal e comunitária de ser objeto da misericórdia Divina, pois no Natal Ele, que veio para salvar a todos, me oferece singularmente o perdão. Foi assim que, segundo o Evangelho da Alegria, iniciou a sua missão: Convertei-vos e crede no Evangelho, pois o Reino de Deus está próximo (Mc 1,14). Natal, festa da Misericórdia!
Possamos como católicos, celebrar a Misericórdia, especialmente nos Sacramentos do Batismo, Eucaristia, Penitência e Unção dos Enfermos. Possamos experimentar a alegria do perdão nesses sacramentos: “Ide em paz, o Senhor vos perdoou”! Possamos, a partir daí, dar o perdão, praticar a misericórdia, amar os irmãos e buscar a comunhão ecumênica com os cristãos de outras igrejas, bem como o diálogo e cooperação recíproca com outras religiões, para a prática da mesma misericórdia. Eis o Natal de Jesus!
Medoro, irmão menor-padre pecador