
Celebramos no último domingo, dia 20, a Festa das Missões. Muito antiga no calendário da Igreja com a finalidade de despertar o conjunto dos cristãos para a evangelização do mundo e nos últimos anos com acento na transmissão da fé às novas gerações numa sociedade pluralista e de pluralismo religioso. Uma enorme diversidade de experiências religiosas e de religiões em países de tradição cristã, especialmente católica, deixou de ser uma exceção para ser um pressuposto com o qual a Igreja deve dialogar.
A grande novidade na modernidade marcada pelo racionalismo materialista, pela emancipação da consciência, pela descoberta da subjetividade e pela crise das tradições e da autoridade é exatamente a volta do sagrado. É difícil encontrar quem se declare ateu, descrente. Ao contrário, as pessoas se antecipam em dizer “eu creio em ‘Deus’ e o ‘meu Deus’ quer a minha felicidade. Assim, o nome de Deus serve para justificar práticas antagônicas em nome de um subjetivismo fechado, “a minha felicidade”.
A partir dessa visão religiosa convivemos quotidianamente com o que a genuína fé cristã condenaria como idolatria: cada um faz, cria o seu “deus”. Assim somos obrigados a conviver com expressões como: “em nome do ‘meu deus’ posso abandonar o lar porque ele me quer feliz”; “posso declarar guerra santa” e “posso afirmar a minha superioridade em relação aos demais”; “posso enriquecer-me às custas dos empobrecidos, pois ele quer a minha prosperidade”; ou “posso descartar os pobres porque são castigados de ‘deus’”.
Mesmos em determinados ambientes cristãos se substitui o Deus de Jesus Cristo, Verbo Encarnado, por caricaturas que desdizem a Revelação feita por Ele. Para todo cristão e para toda instituição cristã é necessário voltar ao Evangelho para discernir se a consciência e a vivência da fé se aproximam ou se distanciam de Jesus Cristo “caminho, verdade e vida” (Jo 14,6). O Evangelho é o critério último da autenticidade da fé. A coerência de vida com a Palavra e a prática de Jesus é que define a nossa salvação.
A razão teológica e espiritual é simples. Jesus certa vez afirmou “Ao Pai ninguém jamais viu, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar” (Jo Lc 10,22). Noutra ocasião à Felipe que lhe pede “Mostra-nos o Pai e isso nos basta”, ele responde “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). O Papa João Paulo II teve o mérito recente de resumir a centralidade de Jesus Cristo para quem busca sinceramente a Deus com as palavras “Jesus é o rosto humano de Deus, o rosto divino do humano”. Toda outra experiência religiosa é, pois idolátrica.
E aqui nasce a necessidade e a urgência da Missão. A Igreja é missionária desde a sua primeira hora. Nasce no ato da missão, pois disse Jesus: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio. Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,19-22). E na sua ascensão reafirma mandato missionário: “Ide! Anunciai as Boas notícias de Deus, fazei discípulos entre os povos. Quem crer e for batizado será salvo” (cf. Mc 16,15-16 + Mt 28,19-20). E em Pentecostes os discípulos receberam o Espírito Santo e saíram por toda parte anunciando o Evangelho (cf At 2).
As missões, pois não visam o proselitismo, encher as igrejas, concorrer com as outras igrejas, ou sitas, ou ainda religiões. A missão não é marketing, propaganda religiosa cristã. Essa quer apenas pregar a fé EM Cristo, vender o produto “Cristo” como condição de prosperidade, de (falsa) segurança. Ao contrário, a missão é Evangelização, prega a fé DE Jesus, como Jesus viveu a sua relação com o Pai e com os irmãos. Jesus antes de ser adorado, quer seguidores do seu projeto. Na oração do “Pai nosso” o explicita: “assim na terra, como no céu”.
O Mandamento Novo do Amor é o legado do Mestre para o seus seguidores: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei” (Jo 15,12). Daqui nasce no “Pai nosso” (Mt 6,7-13) a lei áurea da economia: “O pão nosso de cada dia nos daí hoje”, nem pão demais, nem pão de menos, nada de concentração de bens à custa de exploração ou exclusão. Também aí a lei áurea da política: “perdoai as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos ofendeu”, construí pontes num mundo todo partido.
A Missão evangelizadora dá assim a lei áurea da religião, da autenticidade de toda religião: “seja feita a vossa vontade” de vida de amor e de paz para todos. A dependência radical à vontade de Deus é, por tudo isso, fundamento mesmo da liberdade humana, pois dependendo só de Deus, somos mais e mais livres interiormente, de nós mesmos, em relação aos outros e ao mundo que nos cerca. Vamos pois à Missão para que “santificado seja o vosso nome (Deus)” e para que “venha a nós o vosso reino”. Noutras palavras, só Deus seja adorado e o mundo se torne do jeito que Deus quer.
Medoro de Oliveira