A partir do Concílio Vaticano II, a Bíblia foi conquistando espaço e recuperando sua condição de valor fundamental na vida e na missão da Igreja.

No Brasil, o desejo de conhecimento e de vivência da Palavra fez surgir, com muito sucesso, a prática da leitura e reflexão da Bíblia nas famílias, nos quarteirões, nos círculos bíblicos, em grupos de jovens, grupos de casais. Nos últimos anos ganham força os Grupos de Lectio Divina – Leitura Orante da Bíblia – e aqueles conhecidos como de Ofício Divino da Comunidade, para a oração dos Salmos. Neste dia 30, nossa Igreja celebra o Dia da Bíblia. A data recorda a morte de São Jerônimo, que no séc 4º a traduziu em língua vulgar para que fosse acessível a todos. Em Três Rios, as mulheres que trabalham nas “casas da Av. do Contorno”,  o consideram como seu patrono. Não sei o motivo. Talvez, porque no candomblé seja visto como Xangô, o orixá do trovão e da justiça.

O Mês da Bíblia desse ano é dedicado, como tratamos na coluna da semana passada, ao Evangelho segundo São Marcos.   Mas, quem é esse autor do primeiro Evangelho? Tradição que remonta a Papias, Bispo de Hierápolis, o identifica com João Marcos (At 12,12), o jovem que seguia Jesus de longe no Getsêmani e que deixou o lençol e fugiu nu (Mc 14,51-52) seguidor de Paulo (At 13,5. 13; FM 24), primo de Barnabé (CI 4,10), de Jerusalém. Cristão convertido do judaísmo, discípulo de Pedro que o chamava “meu filho” (1 Pe 5,13). Escreveu seu Evangelho em Roma ou, mais possivelmente, na região Siropalestinense, entre 65 e 70, logo após a destruição de Jerusalém (cf. Mc 13). Tudo indica ser judeu-cristão de língua grega e aberto à missão da Igreja em todos os povos..

Concebeu seu evangelho a partir da paixão, com as penas de morte decididas pela hierarquia judaica. A decisão de executar Jesus foi tomada no primeiro confronto na Galileia (Mc 3,6); foi sendo reafirmada até o relato da paixão (Mc 11,18; 12,12; 14,1s.55). O caminho de Jesus em Marcos - síntese de Frei Gilvander Moreira, citada semana passada -, é feito sob a sombra da morte. Essa nasce da tensão: Jesus é filho de Deus do início ao fim (Mc 1,1.11; 15,39), mas como servo que ama gratuitamente  todos a partir dos injustiçados. No meio aparecem ameaças de morte - e de ressurreição - para Jesus (Mc 8,31; 9,31, 10,33s). Jesus percebe que seu caminho passará pelo martírio, pois enfrenta as injustiças e se doa livre integralmente pela salvação de seu povo.

Marcos é o evangelho do Movimento e do Caminho. Jesus e seu movimento popular-religioso estão sempre se movimentando, sempre em missão, sempre a Caminho. É o Profeta que prepara o caminho (Mc 1,2) e clama para o povo preparar o caminho (Mc 1,3). Jesus está quase sempre caminhando (Mc 1,16). Vai com os discípulos "a caminho do mar" (Mc 3,7) também descreve o que acontece pelo caminho (Mc 8,3.27; 9,33-34; 10,32.52). Quem aceita Jesus deve segui-lo e empunhar seu projeto de libertação integral. Em Marcos o verbo "seguir" aparece dez vezes (Mc 1,17.18.20; 2,14.15; 8,34; 10,21.28.32.52...). Os primeiros cristãos pertenciam ao Caminho (At 9,2; 18,25-26; 19,9-23).

Segundo a síntese a que nos referimos, em Marcos, o Projeto de Jesus e seu Movimento não são uma "boa notícia para agradar gregos e troianos", opressores e oprimidos. É boa notícia para todos, mas a partir dos empobrecidos. Marcos faz opção pelos pobres. Por isso, em Marcos são freqüentes os contrastes e conflitos. Ou se está do lado de Jesus ou contra Ele. O verbo "discutir" aparece várias vezes. (Mc 1,27; 8,11; 9,10; 14,16; 12,28). Em seguida, dois acontecimentos dialéticos: o banquete da morte (festa de Herodes, cf.  Mc 6,14-29) e o banquete da vida (partilha dos pães, cf. Mc 6,30-44). O banquete da morte acontece à custa do banquete da vida.

O Herodes de Marcos 6,14-29 é Herodes Antipas, governou a Galileia de 4 A.C. a 39 D.C. Aparece na morte de Jesus (Lc 23,7). Mandou matar João Batista (Mc 6,14-29). Flávio Josefo afirma que Pereia e Galileia davam à ele 200 talentos por ano ( 1 talento=26Kg e 436 gramas (cf. Mt 18,24). Segundo estudiosos, um trabalhador como aquele da parábola de Mt 20,1-15, que recebeu um denário por um dia de trabalho, levaria mais de quinze anos para conseguir juntar um único talento).  Para Marcos a causa da morte de João teria sido sua denúncia de "imoralidade" de Herodes e sua corte. Mas Flávio Josefo, historiador, dá outra versão: Herodes mandou matar João Batista pois a reputação dele era tão grande que seus conselhos  poderiam levar o povo à rebelião e à desobediência civil, à insurreição, e por isso, considerou melhor tirá-lo do caminho. Marcos denuncia esse banquete da morte e propõe o banquete da vida, que passa pela partilha do pão, pela organização, fraternidade e solidariedade.

Um oficial romano, Mc 15,39, exclama diante do crucificado: "Verdadeiramente este homem é o Filho de Deus." Ou seja, para ser discípulo/a autêntico/a é preciso contemplar os crucificados da história, se comover com a dor deles e abraçar suas causas de libertação. Isso implica por a vida em risco.  Mc 16 anuncia: "Jesus está vivo, ressuscitado. Voltem para a Galileia, pois lá vocês farão a experiência de que Jesus está vivo." Hoje, há milhões de pessoas em muitas Galileias testemunhando que Jesus e seu Evangelho estão vivos em tantos que se doam e combatem lutando por justiça e paz. Bem vindo aos Círculos Bíblicos e à Escola Bíblica Popular; esta, na Paróquia de São José Operário – Triângulo -, na sexta-feira (19h) ou sábado (14h) da segunda semana de cada mês!

Medoro de Oliveira