
Para fortalecer as diversas formas de presença da Palavra de Deus, e ampliar a ação evangelizadora da Igreja, no Brasil, o mês de setembro é dedicado à Bíblia. Todo ano um dos livros da Bíblia é o escolhido como foco para a motivação dos fiéis. Neste ano, temos o estudo do Evangelho segundo Marcos associado ao Projeto Nacional de Evangelização: O Brasil na missão Continental. Este projeto foi elaborado pela Igreja da América Latina após a Conferência de Aparecida e reassumido pela Assembléia dos Bispos do Brasil em 2011. Essa escolha foi também em sintonia com o Ano Litúrgico que estamos vivenciando.
O Evangelho segundo Marcos vem por sua vez, enriquecer as reflexões sobre a dimensão política da fé cristã, que temos tratado nesta coluna semanal. Assim, buscando uma comunhão sempre maior com a caminhada da Igreja do Brasil, temos uma luz muito forte para o discernimento da nossa missão evangelizadora aqui em Três Rios. Compartilhamos, pois, nessa e na próxima edição, alguns aspectos fundamentais desse Evangelho tomados, em parte, da síntese do Frei Gilvander Moreira, assessor do CEBI – Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos.
Um primeiro aspecto do Evangelho de Marcos que precisamos ter presente, é que não foi escrito enquanto Jesus de Nazaré convivia com o povo, consolando os aflitos e afligindo os consolados. Mas foi escrito por volta dos anos 70 do 1º século da era cristã. Logo, trata-se de “teologia da história e não de uma crônica jornalística da práxis e do ensinamento do Galileu”.
Provavelmente, esse Evangelho foi escrito fora da Palestina, na periferia da capital do Império Romano, onde os apóstolos Paulo e Pedro tinham, segundo a tradição, sido martirizados. Marcos objetiva guiar as primeiras comunidades cristãs que enfrentavam, como os cristãos de hoje em dia, muitos problemas e desafios.
Marcos inicia seu Evangelho dizendo: "Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus." (Mc 1,1). Assim, Marcos é o criador do gênero Evangelho. O de Marcos é único dos quatro Evangelhos da Bíblia que usa a palavra Evangelho, que quer dizer boa notícia aos empobrecidos e, conseqüentemente, péssima notícia para os opressores dos pobres (cf. (Mc 1,1.14.15; 8,35; 10,29; 13,10; 14,9// Lc 4,18-19).
Organizado segundo uma seqüência cronológica, o Evangelho de Marcos, com 16 capítulos, é o menor de todos e serve como uma das fontes para a elaboração dos outros três evangelhos: Mateus, Lucas e João. Existem nele algumas ausências. Não há narrativa da genealogia, nem das infâncias de João Batista e de Jesus, nem do Pai Nosso e nem das Bem Aventuranças. A narrativa das tentações está resumida (Mc 1,13).
Ele começa o seu Evangelho situando sócio-politicamente o início da missão de Jesus. Faz questão de dizer: "Depois que João (Batista) foi preso, veio Jesus para a Galileia proclamando o Evangelho de Deus..." (Mc 1,14). Quer dizer, foi um acontecimento político - repressão ao profeta João Batista, líder de um movimento popular-religioso -, feito pelo governador Herodes, que fez Jesus reconhecer que a sua hora tinha chegado, que era preciso iniciar sua missão pública.
Marcos também mostra Jesus em conflito com autoridades religiosas (Mc 2,1-3,6), mas o grande inimigo de Jesus e do seu Projeto é o poder político. Conseqüência: somos discípulos/as de um prisioneiro político. É impossível ser pessoa cristã sem se comprometer com a luta por justiça, com uma Política que construa uma sociedade justa, solidária, ecumênica, com direitos humanos e sustentabilidade ambiental.
Em Marcos, os empobrecidos, excluídos, doentes, endemoniados, cegos, surdos-mudos... todos os injustiçados se sentem chamados por Jesus. Vão ao encontro dele, revelam grandeza de espírito, audácia e passam a seguir o mestre Galileu tornando-se seus discípulos/as. Por outro lado, nesse Evangelho, os apóstolos e discípulos revelam ter uma grande dificuldade de entender o projeto de Jesus. São "duros e ignorantes". Isso aparece nas repreensões a Pedro (Mc 8,32s), na discussão dos discípulos sobre a hierarquia de cada um deles na hierarquia apostólica (Mc 9,32ss), no pedido dos filhos de Zebedeu solicitando para si os primeiros lugares (Mc 10,35-45). Enfim, no Evangelho de Marcos os/as autênticos/as discípulas/os são os oprimidos e injustiçados.
Já naquela época havia quem entendesse milagre como algo extraordinário e para além da natureza, feitos a serem realizados apenas por quem tivesse um poder para além do humano. Para combater essa ideia, Marcos vai mostrar Jesus fazendo milagres como exercício de solidariedade, de cuidado, de ação misericordiosa. Os milagres têm também a força de desestabilizar o status quo religioso, porque Jesus, sem ser sacerdote, sendo leigo e sem cobrar nada, curava as pessoas, dentro de um processo de solidariedade gratuita. Isso minava a privatização da saúde que, sob pagamento, estava nas mãos dos sacerdotes.
Marcos vai, ao longo do Evangelho, demonstrar que Jesus é o Cristo, o messias filho de Deus, mas não o messias do poder, nem do prestígio, nem da pureza, nem da Lei, nem da religião dos poderosos, mas o messias servo sofredor. Por isso para Marcos, Jesus é aquele que por amor extremado à humanidade se doa até ao martírio. Assim seus seguidores devem assumir a sua missão e o seu destino. É intrínseco, pois, à experiência de Deus o amor-serviço aos irmãos. Fé política é o nome dessa experiência segundo Marcos. Sobre isso voltaremos na semana que vem.
Medoro de Oliveira