
O mês de Maio foi apropriado pelo catolicismo popular como o Mês de Maria. Certamente uma intuição profunda em contemplá-la inserida no Mistério Pascal de Jesus Cristo, que a Liturgia Cristã celebra em cinco semanas após o Domingo da Ressurreição. Ela é o modelo da Igreja que nasce da efusão do Espírito Santo sobre os apóstolos congregados no Cenáculo sob sua maternal liderança (Atos dos Apóstolos 1, 13-14). Dada por seu Filho na cruz como nossa Mãe (João 19,26-27), nos ampara e inspira no seguimento de Jesus Cristo, na comunhão da sua Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica (Mateus, 16,13-28; Atos dos Apóstolos 2,1-13).
Nesse tempo pascal a espiritualidade cristã bebe nas Escrituras a esperança-certeza da nossa ressurreição e vida eterna. Nós, diferentes do conjunto da humanidade que crê na morte, cremos na Vida Eterna!. A fé na morte gera um regime de medo que nos aprisiona em nós mesmos e nos faz indiferentes à cruz e à morte dos irmãos, o que caracterizam os tempos atuais, não obstante o progresso técnico-científico. Esse gera o individualismo que traz consigo o egoísmo de possuir mais e mais à custa dos outros, indiferentes à dor alheia. Aqui nasce uma moral perversa e cínica que tem como leis fundamentais os ditados “Cada um cuida de si e Deus de todos” e “Tudo é permitido desde que concorra para o meu próprio bem”.
Maria, ao contrário, sempre acreditou na vida, disse “Sim” à Vida quando escolhida por Deus para ser a Virgem Mãe do Salvador (Lucas 1, 26-38). Não temeu a possível reação negativa do noivo José, nem da família e nem da sociedade, que na época mandava apedrejar as mães solteiras. A fé na Vida fez que ultrapassasse os incômodos e riscos de sua gravidez inesperada e difícil e abraçasse o projeto de solidariedade à vida, segunda a mais genuína tradição do Antigo Testamento. Em seu primeiro cântico de louvor após a Anunciação do Anjo, deixou prorromper em seus lábios a utopia revolucionária de uma nova sociedade sem as cruéis assimetrias sociais que o seu Filho viria ter como o seu projeto político.
De fato Jesus se apresentou como o Bom Pastor que dá a sua vida pela Vida do seu povo: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (João 10,10). A vida terrena desde então tornou-se o inicio da Vida eterna. Como Jesus, a Igreja nasce com a missão de defender, cuidar e promover a vida. O mandamento deixado por Jesus é claro: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12). A mais genuína espiritualidade cristã tem a sua dimensão orante sintetizado na oração do Pai nosso. Ali Deus é adorado como Pai de todos, o que implica em vida bonita, feliz e fraterna para todos, como é a Vida eterna. Reza Jesus; “assim na terra como no céu” (Mateus 6, 7-15).
No berço familiar Jesus assimilou a ternura e a compaixão de Deus na catequese bíblico-vivencial de seus pais. Com Maria da Fé aprendeu a por a sua confiança na vontade do Pai (Mateus 6,10; 26,39). Com José do Amor aprendeu a providência, o cuidado, o amparo da vida (Mateus 1,18-25; 2,13-23; Lucas 2,48). Assim, quando a Igreja contempla e celebra a Páscoa, o futuro da vida, a comunidade cristã dos pobres reza, ao longo de todo o mês de maio, o Terço de Nossa Senhora para meditar sobre os Mistérios da Vida de Cristo e de Maria. E para que isso não se torne uma mera religiosidade alienada e descompromissada, a Igreja introduz no dia 1º de maio a Festa de São José Operário solidário com a vida indefesa e ameaçada. Que o Mês de Maria e José nos dê, pois a alegria, de como eles, festejar na ressurreição de Jesus, a nossa esperança de Vida em plenitude e, ao mesmo tempo o nosso compromisso com a justiça e a paz!
Medoro, irmão menor – padre pecador.