
Estamos em pleno Mês da Bíblia, celebrado sempre em setembro desde 1971, que neste ano tem como tema “A Sabedoria em defesa da Vida”. Já é o terceiro ano que, de acordo com as diretrizes da Igreja na América Latina, contidas no Documento de Aparecida, estamos aprofundando a segunda parte da proposta pastoral: “Ser Discípulos Missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”. O tema central durante estes quatro anos é sempre o mesmo: a defesa da vida! O lema é: “A Sabedoria é um espírito amigo do ser humano” (Sb 1,6). Ou seja, a Sabedoria é uma expressão da amizade de Deus por nós, seres humanos.
Estamos, pois, em nossos Círculos Bíblicos e em nossas CEBs-Comunidades Eclesiais de Base, conhecendo e refletindo a primeira parte do Livro da Sabedoria (Sb 1,1-6,21). Segundo o arcebispo de Curitiba e presidente da Comissão para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB, dom José Antônio Peruzzo, é muito importante estudá-lo no contexto atual, pois, “Teremos eleições neste ano de 2018. É possível antever um quadro de fortes tensões. A situação social e política do nosso Brasil, sabemos, é de muitas inquietações. E o Livro da Sabedoria nos oferecerá muitas inspirações para temas como justiça, sentido da vida e o bem comum. É preciso que compreendamos que quem não ama a sabedoria, buscará argumentos até para a violência”.
Entre as muitas reflexões já publicadas destacamos a colaboração do Frei Gilvander Luiz Moreira, do CEBI-Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos de Belo Horizonte, a partir do versículo “Amem a Justiça, vocês que governam a terra!” (Sb 1,1a). Ele recorda que o “Livro da Sabedoria nos mostra que governo sábio e justo é o que promove o bem comum (Sb 1,1-7.14)”. O Livro da Sabedoria poderia ser chamado Livro da Justiça. Nos cinco primeiros capítulos tece comparação entre a vida das pessoas justas e das injustas durante a vida terrena e após a morte. Nos capítulos 6 a 9, há reflexão sobre a origem e a natureza da sabedoria e o caminho para adquiri-la. Assim, já em Sabedoria 1,1-15, são tecidas, por exemplo, reflexões no sentido de demonstrar que o cume da sabedoria é a vivência e prática da justiça; não é apenas fazer solidariedade ou demonstrar amor ingênuo ao próximo. Sabedoria, uma justiça que gera bem comum para todos.
Segundo o biblista Luís Afonso Schokel, citado por Frei Gilvander, “o livro da Sabedoria é um tratado de teologia política. Tal conclusão deriva, entre vários motivos, do fato de iniciar-se o livro com uma exortação a quem tem a missão de governar, diríamos hoje, os chefes do Estado – poderes Judiciário, Executivo e Legislativo: Amem a justiça, vocês que governam a terra… (Sb 1,1a). De saída, critica os legalistas e os que friamente e farisaicamente aplicam as leis como se pudessem ser neutros. ‘Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor’, profetiza o bispo Desmond Tutu. Sem amor aos injustiçados e oprimidos e sem compromisso com a luta pelos seus direitos, o exercício do poder de julgar se torna fonte de opressão e de exploração”.
“O Espírito Santo, que educa, foge da fraude, afasta-se dos pensamentos insensatos, e é expulso quando sobrevém a injustiça” (Sb 1,5). Onde acontece fraude – opressão e corrupção -, portanto, afugenta-se um espírito vivificador, pois um espírito diabólico, que desune e cria intriga, se instaura. Onde domina a injustiça, um espírito destrutivo domina e escorraça um espírito construtivo, conclui o autor. “Haverá investigação sobre os projetos do injusto, e o rumor das palavras dele chegará até o Senhor, e seus crimes ficarão comprovados” (Sb 1,9). O Livro da Sabedoria anima a esperança do povo injustiçado ao afirmar que os injustos não ficarão impunes; os crimes dos injustos serão investigados e comprovados. Nenhuma luta por justiça é em vão. Essa esperança se constrói na luta comunitária, ao tornar presentes as lutas libertárias do passado, cultivando a fé e os feitos “dos nossos pais” (Sb 9,1).
“Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos seres vivos. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo são sadias” (Sb 1,13-14a). O livro da Sabedoria, portanto, não apenas alimenta a fé em Deus, como se houvesse um Deus abstrato, mas anima a fé em um Deus que quer “vida em abundância” (João 10,10), para todos os seres vivos. “A maior sabedoria é praticar a justiça que só pode ser justiça verdadeira, se gerar bem comum para todos. Todo saber que maquina e engendra exploração do outro não é sabedoria, é injustiça. O livro da Sabedoria é, pois um libelo contra os injustos e exploradores que vivem no luxo, com vida cômoda, esnobando riqueza e privilégios e, na prática, cuspindo no rosto dos empobrecidos”, conclui Frei Gilvander. Só pode ser sabedoria uma justiça que gera bem comum para todos.
Medoro, irmão menor-padre pecador