Amanhã, culmina em todo Brasil, especialmente em Aparecida, SP, as festividades do Ano Mariano em comemoração aos 300 anos do encontro, nas águas do Rio Paraiba do Sul, exatamente no Porto Itaguaçu, da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, por três pobres escravos que ali pescavam. O que parecia dois cascos de uma imagem quebrada e jogada ao rio, ainda de cor de barro, na verdade se tratava de uma manifestação miraculosa da Mãe de Deus para com os brasileiros empobrecidos, especialmente negros e escravos. Uma devoção que em pouco tempo se expandiu por todo o país, vindo a ser reconhecida como Mãe Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil.

            A primeira lição nos ensina que Maria, a Mãe do Filho de Deus é Mãe de todos os filhos de Deus, com especial predileção maternal por aqueles que são escravizados, excluídos e descartados. Atentemo-nos para o fato de que em todas as suas revelações sempre se apresenta com o rosto ou a pele daqueles que são feridos na sua dignidade humana. Recordemos, a título de exemplo, que no alto racionalismo francês quando os analfabetos, incultos e doentes mentais eram desprezados em situações vis de sobrevivência, ela aparece em Lourdes, com o rosto de uma moça deficiente mental. Ou em Portugal, em Fátima, na crise do campesinato com o rosto de camponesa. Já em Guadalupe no grande genocídio dos nativos com o rosto de uma indígena.

Em Aparecida, com pele negra, não só deslancha o movimento abolicionista, mas dá a lição de que cabeça e corpo não podem estar separados. A cabeça não é só para raciocinar em função da produção que se exige do trabalhador, especialmente do escravo, mas para ordenar o próprio corpo na sua múltipla função de manifestação, ou corporificação de sua interioridade. Ou seja, pelo corpo que tem cabeça o ser humano é fundamentalmente natureza e liberdade. Não se restringe a ser um “burro de cargas”, mas está chamado por Deus a ser o seu próprio senhor, senhor de sua vida, ser de liberdade que dispõe de sua própria natureza para realizar-se plenamente como pessoa, imagem e semelhança de Deus.

E a dimensão mais profunda da pessoa humana é a sua espiritualidade, sua vocação de se encontrar mais e mais com o seu Deus-Pai e criador, com o auxílio do Espírito Santo, no seguimento pessoal de Jesus Cristo e de seu Evangelho, em comunidade. Afinal Deus é a Melhor Comunidade! Precisava pois serem três pescadores que acolhessem o Filho de Deus, que aparece sendo gestado na pequenina imagem de Maria Grávida. A partir dai, registra a história que, como outrora São José, a levaram para a senzala, reuniram os irmãos e deram inicio, não só à devoção orante que foi crescendo e sendo confirmada como verdadeira, pelos incontáveis milagres que as ciências não são capazes de compreender e explicar, mas nasce a Igreja dos pobres; preconizando o que mais tarde serão as CEBs-Comunidades Eclesiais de Base!

Assim, ao longo desses trezentos anos, desde o momento inaugural do achado da imagem nas águas do Rio Paraíba do Sul a fé do povo brasileiro vem-se concretizando na busca sincera do cumprimento do Mandamento Novo do amor que nos faz todos irmãos. Isso tem implicado, não poucas vezes, atitudes proféticas de denúncia das injustiças, opressões, explorações, marginalizações... Ao mesmo tempo um recriar atento da missão evangelizadora que busca, como nos diz o Beato Papa Paulo VI na Populorum Progressio, “libertar o homem todo e todos os homens”. Ela não restringe, pois ao campo religioso, mas se expande a tudo o que é do humano. Enfim, a dimensão explicita da fé não é relativizada, mas fonte de compromisso com o humano e de festa, pois permite fazer na história a experiência mesma de Deus; como acontece nas CEBs: práxis e festa, oração e ação, fé e vida!

Salve a Padroeira do Brasil! Mãe Aparecida, rogai por nós!

Medoro, irmão menor-padre pecador