O último domingo de agosto é dedicado à celebração vocacional do conjunto dos cristãos e cristãs que participam da vida, missão e decisões da Igreja e que são chamados de leigos e leigas. Inicialmente discípulos e discípulas de Jesus Cristo, dentre os quais, apenas alguns escolhidos para serem apóstolos. Ali, no nascente Povo de Deus, resplandece como modelo de corajosa e generosa disponibilidade Maria, a primeira seguidora de Jesus. E, através dos séculos, o conjunto dos batizados faz a Igreja presente na sociedade, no mundo, como sacramento – sinal e instrumento – do Reino de Deus. E, como sabemos, o Reino é o mundo do jeito que Deus quer: uma fraternidade sobre os alicerces da justiça, do amor e da paz.

Nos primeiros séculos do cristianismo essa categoria leigo, do grego laos, laicos, significava povo ou membro do povo. Assim, toda comunidade cristã se autocompreendia como Povo de Deus, com sua variedade de carismas, ministérios e serviços para o testemunho do Crucificado-Ressuscitado e continuidade de sua missão de fazer acontecer o Reino de Deus na História. O amor-serviço nas comunidades, em sua rica pluralidade, segundo as suas necessidades, não conheceu, por isso mesmo a dicotomia clero/laicato, hierarquia/povo. E mais. Tertuliano testemunha que os primeiros cristãos levaram tão a sério o mandamento de Jesus (“amai uns aos outros”... “nisto conhecerão todos que sois meus discípulos”) que os pagãos ao observar os cuidados recíprocos entre eles, exclamavam, admirados: “Vede como eles se amam!”.

Frente ao crescimento das comunidades e aos novos apelos à caridade missionária, os cristãos foram aos poucos sentido a necessidade de uma organização ministerial. Temos notícias de que pelo século IV algumas comunidades começaram a hierarquizar os ministérios, contudo sem conhecer ou admitir a dicotomia clero/laicato. Só no século VII tem início a introdução da divisão: clero para aqueles que exercem o ministério ordenado e laicato para aqueles que exercem os demais ministérios e serviços eclesiais. Mas, sem perder a identidade da igualdade fundamental de todos os batizados e a participação comum na vida, missão e decisões da Igreja. Foi por necessidade sociológica e não teológica que os clérigos passam a se dedicar ao cuidado da vida interna da Igreja, dos sacramentos, e os leigos à missão no mundo. 

Essa dicotomia do clero para o sagrado e o leigo para o profano foi enfim superada oficialmente pelo Concílio Vaticano II. A partir da categoria Povo de Deus, todos os crentes estão chamados ao pluralismo ministerial dentro ou fora da Igreja. E, nas últimas décadas, assistimos ao crescente engajamento dos leigos na catequese, na liturgia e na caridade social da Igreja. A maioria de nossas comunidades católicas, por exemplo, celebram o Dia do Senhor sob a presidência de ministros leigos. Os sacramentos do Batismo e do Matrimônio também com o laicato à frente. Vemos ainda, com esperança, muitos leigos empenhados em sua formação teológica, como acontece – aqui entre nós – com a riqueza do CITEP-Curso de Iniciação Teológica e Pastoral. E, por outro lado, se multiplicam as pastorais sociais como espaços do engajamento laical na sociedade. Destaque para a presença profética no mundo operário e na política. 

Destacamos enfim a crescente participação dos leigas e leigas nas decisões da Igreja, através das Assembléias Pastorais e Conselhos de Pastoral. A partir de então, o ministério pastoral dos padres é um serviço de animação, coordenação e comunhão ministerial do conjunto do Povo de Deus. E, por isso, a valorização de nossos sacerdotes para a presidência da Eucaristia e para a promoção da unidade, seja entre os irmãos na comunidade local, seja na comunhão destas com as demais comunidades, fazendo brilhar a catolicidade de toda a Igreja. E, consequentemente, a valorização do protagonismo dos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. “Os cristãos leigos são homens e mulheres da Igreja no coração do mundo, homens e mulheres do mundo no coração da Igreja” (DA 210). 

                                                      Medoro, irmão menor-padre pecador