O Papa vem ao encontro da juventude que já está nas ruas. As recentes manifestações que levaram milhões de pessoas para as ruas das principais cidades do país tiveram o protagonismo dos jovens. As manifestações juvenis são sempre termômetro da sociedade. Essas manifestações continuam a despertar perplexidades e a provocar as mais diversas análises. A imprensa, com seu já velho comportamento de porta-voz do conservadorismo, apressa-se em fazer crer que as multidões de jovens se manifestaram em oposição aos governos de Lula e Dilma.

Não perece que seja bem isso, embora não se descarte a possibilidade da justa insatisfação acabar por levar água aos moinhos da oposição, caso o governo não consiga dar respostas satisfatórias para as reivindicações. Mas, as verdadeiras bandeiras de oposição (a crítica ao bolsa-família, a política de cotas nas universidades, ao programa minha casa minha vida, a política externa independente dos interesses dos EUA e de estreitamento das relações com os vizinhos da América do Sul e com as jovens nações africanas, etc) não foram vistas nas manifestações.

Também não se viu nas ruas quem defendesse a política econômica da principal oposição ao governo (PSDB,DEM,PPS) que é a adoção das medidas recessivas ditadas pelos organismos ditos internacionais (mas na verdade controlados pelos grandes conglomerados multinacionais). Como também não se viu (pelo menos de forma ostensiva ou notável) quem defendesse as bandeiras da pequena oposição de esquerda (PSOL, PSTU) e propagandeasse uma opção claramente socialista.

Na verdade mesmo que de forma difusa o movimento parece expressar (embora talvez inconscientemente) um claro descontentamento com o sistema. Mas isso é assunto profundo que não cabe aqui por falta de espaço e de momento. A contribuição que desejo fazer nesse momento (como já disse de perplexidade e expectativa) é trazer para o debate opiniões de dois grandes pensadores (e ativistas) católicos: Frei Betto e Ivo Lesbaupim. Frei Betto cita São Tomás de Aquino ao dizer que “a vida supera as idéias”, para falar que a posição de espanto das lideranças políticas do país diante das manifestações é semelhante as da esquerda tradicional quando do surgimento do PT nos anos 80.

Para ele a mensagem das ruas é simples: os governos Lula e Dilma (Frei Betto chama de “nossos”) se afastaram de sua base social. “A sociedade política – executivo, legislativo e judiciário - parece ter se convencido que representava de fato o povo brasileiro e mantinha o controle sobre os movimentos representativos da sociedade civil, como hoje acontece com a CUT e a UNE. Parecem  ter esquecido o dito de Jesus Cristo de que não só de pão vive o homem”.

Então, prossegue a reflexão de Frei Betto, mesmo que os 10 anos de governos do PT tenham melhorado as condições sociais e econômicas do país, “o povo não viu saciada sua fome de beleza (educação, cultura e participação política)”. Para ele, o governo do PT optou por uma governabilidade assegurada pelo Congresso Nacional, “em que perduram os 300 picaretas denunciados por Lula, e não investiu na governabilidade apoiada nos movimentos sociais como Evo Morales fez com êxito na Bolívia”.

Prosseguindo Frei Betto diz que agindo assim “nosso governo para conservar os dedos perdeu pouco a pouco os anéis”. Diz mais: “hoje a maioria dos partidos nega a democracia ao impedir um governo do povo com o povo. Não basta pretender governar para o povo para poder considerar-se democrata. O povo nas ruas exige novos mecanismos de participação democrática enquanto manifesta sua desconfiança em relação aos partidos políticos. Estes estão obrigados a renovar seus métodos ou então serão atropelados pela sociedade civil. Essa é a mensagem das ruas: democracia participativa e não só delegativa. Ou seja, governo do povo com o povo e para o povo. Isso não é utopia, desde que não se considere o modelo atual como perpétuo e se admita que o regime democrático pode gerar novos estilos de participação popular nas esferas de poder”.

Já Ivo Lesbaupim diz que a razão das manifestações teria sido a “forma de fazer política que vem dominando o país. Para levar à frente o que pretende, o governo se apóia na "governabilidade” – ou seja, maioria no Congresso -, para poder aprovar as leis e medidas que ele considera necessárias. Para isso, ampliou as alianças com outros partidos políticos, inclusive de direita, a tal ponto que lideranças reconhecidamente corruptas e/ou de direita, antes impensáveis, passaram a fazer parte da base aliada: primeiro Sarney, depois Renan Calheiros, depois Collor, depois Maluf...”

Com isso, “os partidos, mesmo os tradicionais de esquerda, passaram a se confundir com os partidos conservadores na sua forma de agir, fisiológica. "Comprar votos”, fazer barganhas para conseguir mais, aceitar formas pouco éticas de fazer política, como o "caixa 2”, se tornaram práticas usuais. Tudo passou a ser válido para manter o poder ou para ganhar novas eleições. As chantagens passaram a ser aceitas como um jogo a ser jogado, para não perder ou para ganhar votos de algum setor social. Desta forma, a bancada ruralista começou a obter vitórias sucessivas.  Desta forma, a bancada religiosa fundamentalista passou a ganhar espaço. Tudo isso foi possível em nome da "governabilidade”, as alianças sem critérios, as concessões, a mudança de programa. Apoiado em pesquisas de opinião pública que lhe davam uma ampla e crescente aprovação popular, o governo não cedia em nada aos diferentes grupos e movimentos sociais que ousavam contestar suas políticas. Em um determinado momento, a insatisfação entrou em erupção, deu-se uma explosão e as massas foram para as ruas. Primeiro com reivindicações bem precisas, depois com outras mais amplas e depois com as mais variadas”.

Em seguida, depois de analisar as propostas feitas pelo governo como resposta às manifestações, Ivo Lesbaupim afirma que diante da pressão popular “finalmente o governo saiu do seu castelo; está com mais disposição para ouvir os cidadãos e está tomando medidas, não é só discurso. O que evidentemente vai andar, depois de ter sido empurrado durante vários anos, é a reforma política. Com Constituinte ou sem; com Plebiscito ou sem, vai haver reforma. A Plataforma pela Reforma Política – que reúne várias redes de organizações da sociedade civil - discute o tema há quase dez anos e tem propostas precisas a respeito, inclusive um Projeto de Iniciativa Popular em fase de recolhimento de assinaturas. A Plataforma vai agora ser ouvida, especialmente na questão do financiamento das campanhas eleitorais”.

Diz também que; “o transporte, certamente, vai encontrar meios de ser melhor tratado, com mais transparência, mais controle social, mais participação dos usuários. Cabe a todos nós, cidadãos e cidadãs, continuar exigindo do governo e dos poderes constituídos uma forma democrática participativa de governar, onde cidadãos e cidadãs sejam não apenas ouvidos, mas tenham a possibilidade de participar nas decisões - naquilo que diz respeito à sua vida, ao seu bem estar, aos serviços públicos, portanto, com relação à política econômica, que afeta o seu trabalho, o seu ganho, os seus impostos, o seu futuro. Afinal, o soberano é o povo, não seus representantes: na fórmula de nossa Constituição, "todo o poder emana do povo".

Certamente essas opiniões reflexivas desses dois homens de Deus nos ajudarão nas nossas próprias reflexões e nos serão úteis na busca dos caminhos em que iluminados pelo Evangelho buscamos a concretização do Reino de Deus no meio de nós. Esperamos igualmente que a juventude vinda dos quatro cantos da terra para o encontro com o Papa Francisco, façam da JMJ – Jornada Mundial da Juventude – um grito universal por uma sociedade mais justa e igualitária, solidária e misericordiosa em que Jesus Cristo seja acolhido, acreditado e aclamado, de fato, como o único Senhor da História e Rei do Universo.

Medoro de Oliveira