
Fomos surpreendidos pela visita de nossa querida e benemérita agente da Pastoral da Sobriedade, a Irmã Antônia. Depois de vários meses desde que foi transferida para São Paulo, teve a delicadeza de ocupar a sua necessária e folga para nos trazer o seu apoio. Que força! E para a Missa do 11º passo enviou a seguinte mensagem:
Querida família da Pastoral da Sobriedade
Neste dia somos convidados a: “Termos os olhos fixos em Jesus”
“Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62)
O olhar é o reflexo de nossa interioridade; ele tem um grande poder porque deixa transparecer o que acontece e o que sentimos por dentro.
O corpo humano é um receptor e um transmissor de emoções e a principal mediação para comunicá-las e transmiti-las é através do olhar. A maneira de conhecer melhor uma pessoa, criar laços de empatia com ela e inclusive saber se o que está dizendo é verdade ou mentira... é através do olhar.
O olhar é o recurso não verbal mais expressivo e sincero que nós, seres humanos, possuímos, porque com um simples olhar podemos transmitir desde o ódio até uma declaração de amor ou de amizade. “Se eu morrer, morre comigo um certo modo de olhar”, disse um poeta. Mas o hábito contamina os os condições olhos e tira seu brilho expressivo. Acostumamos a ver as coisas, as pessoas e, de tanto ver, banalizamos o olhar, perdendo a capacidade de despertar assombro e encantamento. Vemos e não olhamos. O que está próximo de nós, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual vai se estreitando e tudo se torna rotina.
Faz-se necessário, então, despertar a criança que ainda habita nosso interior; ela vê o que o adulto não vê, pois tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. A sobriedade nos da condições para isso.
“Um olhar contemplativo percebe sinais de evangelho nos acontecimentos mais simples” (Ir. Roger).
Nossos olhos refletem nosso interior. Eles podem estar em condições favoráveis para contemplar a cena do chamado de Jesus. São olhos sadios. Sadios porque há uma correspondência direta e uma profunda intimidade entre aquele que olha e Aquele que é olhado.
Há pessoas que olham de forma bastante objetiva, transparente. São pessoas internamente mais livres, cujo olhar se deixa impactar pela presença e pela proposta de Jesus. Desse olhar brota o assombro, a admiração e o impulso em assumir o mesmo sonho do Jesus peregrino: a realização do Reino do Pai.
No entanto, há também os olhos feridos que não ousam ir mais além; os ferimentos podem vir do interior, bem como do exterior da pessoa. São ferimentos de sua história, de seu passado, das experiências frustrantes que viveu até o momento presente. Muitas pessoas passam grande parte da vida fortemente impactadas por experiências negativas, de desamor, de solidão e desvalorização...
Existencialmente, em seu olhar a pessoa pode revelar seus ferimentos afetivos, experiências de rejeição e de “olhares pesados” dos outros sobre ela.
Elas escondem o olhar quando expostas a realidades externas difíceis, de violência, de exclusão... Elas acabam pensando que o mundo e a realidade das pessoas se reduzem a isso, e projetam uma visão deturpada sobre a própria pessoa de Jesus. Dói-lhe fixar os olhos n’Ele.
Com isso, seu olhar fica atrofiado e não ousa levantar-se para contemplar diante de si a pessoa de Jesus. É o que poderíamos chamar de “cataratas” existenciais e espirituais. São obstáculos que impedem uma experiência mais profunda e objetiva na vivência do Evangelho.
Todos somos testemunhas de como pessoas internamente feridas no amor expressam um rosto um tanto sofrido e os olhos revelam certa tristeza e amargura.
Por isso, temos a clara convicção de que os 12 passos da Pastoral da Sobriedade leva a pessoa a olhar de frente e encontrar o olhar misericordioso de Jesus e marcado pela ternura, e encarar sua proposta de viver uma vida marcada pela Sobriedade..
A própria pedagogia de humanização ampla de Jesus vai beneficiar nossa própria identidade, despertar dinamismos e desejos ocultos em nosso interior, sacudir nossas amarguras e ampliar nosso atrofiado olhar.
Ao “fixar seu olhar” em cada um de nós, chamando-nos pelo nome, seremos movidos a fazer opções mais radicais e integrais pelo Reino, segundo o modo de ser, de viver e de fazer do próprio Jesus.
Sobriedade e Paz só por hoje!
Abraço grande!