
Publicamos na coluna da semana passada a nota dos bispos das dioceses que compõem o Regional Leste 1 (Estado do Rio de Janeiro) da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, lida pelo Bispo de Barra de Piraí – Volta Redonda, Dom Francisco Biasin junto ao Padre Rafael Ferreira, no ato que marcou a Abertura Estadual da Campanha da Fraternidade 2018 que tem como tema “Fraternidade e a superação da violência”,. e como lema “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), na Catedral Metropolitana de São Sebastião no centro do Rio de Janeiro, no dia 17 de fevereiro, pp.
No fim do ato o testemunho de Mônica Cunha, membro da Pastoral do Menor, emocionou os presentes. Ele falava em nome das vítimas das formas agudas de violência. “Em 2000, meu filho foi assassinado. Desde então, travo uma luta por justiça e igualdade, mostrando para a sociedade que o adolescente autor de ato infracional não deve ser morto. A violência está grande em todo o Estado, mas essa violência tem cor e local específico: o povo negro, que vive nas favelas e nas periferias, são eles que mais sofrem. As mães negras já não aguentam mais perder seus filhos. Agradeço a todos os religiosos por estarem conosco nessa luta”. E enquanto cantava se a Oração pela Paz, balões subiam ao céu como oração de súplica para que consigamos superar a violência.
Já em nossa Paróquia de São José Operário, no Primeiro da Quaresma, celebramos a abertura local dessa Campanha da Fraternidade, em Moura Brasil, sob a participação vibrante e conscientizadora de dezenas de jovens. Na ocasião foi apresentada uma denúncia profética contra os quatro homicídios ocorridos nos últimos dias em nossa cidade e região. Resgatou-se nessa hora a palavra pastoral do bispo emérito de Duque de Caxias, Dom Mauro Morelli, que desmistificou a intervenção militar de Michel Temer afirmando que se trata de uma ação contra os pobres do Rio de Janeiro.
“Trabalhei 24 anos na Baixada Fluminense como primeiro bispo da Diocese de Duque de Caxias. Discordo de intervenções que aviltam militares e trazem angústia e sofrimento aos pobres, em sua maioria de origem africana. A tarefa constitucional dos militares é outra, também a solução!”, escreveu o religioso, indicando que os negros são os principais alvos da repressão. “Quem não é branco nas noites da Baixada corre risco de vida, tamanho o preconceito da sociedade escravocrata e racista. Se houvesse raça superior, seria a raça negra. Com 300 anos de escravidão e tantos séculos de discriminação, seu gingado é insuperável”, disse o bispo católico.
Dom Mauro ainda se dispôs a debater seu ponto de vista no Twitter: “Alguém contesta meu twitter afirmando que somente os bandidos sofrem com intervenção… Santa ingenuidade ou malícia refinada! Não faço discurso teórico ou demagógico. Se o problema do Brasil fosse bandido ou marginal das favelas ou “comunidade”…até que o bicho não seria tão feio!”. Portanto, Dom Mauro reafirma que o problema da segurança pública no Rio e no Brasil não se resolve metralhando pobres dos morros. Pelo contrário. A solução seria ampliar a presença do Estado com políticas públicas de acesso à saúde, educação, moradia, emprego, salário digno, aposentadoria, lazer… Tudo que o Vampiro Neoliberalista, isto é, o governo Michel Temer, não deseja.
“Favelas remontam à abolição da escravatura por razões de natureza econômica. Aos ‘libertos’ nada foi oferecido, sua opção ocupar morros, alagados e debaixo das pontes. O inchaço das periferias metropolitanas fruto do modelo de desenvolvimento do Golpe de 1964. O que virá agora?”, questiona Dom Mauro Morelli.
Na mesma celebração, ainda aturdidos pela notícia da intervenção do exercito no Rio de Janeiro ecoou, também, entre nós o grito profético de Dom Francisco Biasin, bispo da diocese vizinha de Barra do Pirai-Volta Redonda: “Intervenção militar não é solução”. Acrescentou: “Em Volta Redonda vivemos a dura experiência da intervenção do Exército em 88... D. Waldyr Calheiros se posicionou firme contra e em defesa das vidas.” O Bispo conclamou às comunidades a ficarem atentas e não permitirem que a cidadania seja ferida. E é esse o nosso apelo!
Medoro, irmão menor-padre pecador