É muito forte em nossa tradição religiosa-cultural as festas juninas de Santo Antônio, São João Batista e São Pedro e São Paulo. E nos últimos tempos cresce a devoção, seguida igualmente de festa, à brasileira Beata Nhá Chica, em 14 de junho. Comemorações que tínhamos em meio às quadrilhas, fogueiras e arraiais com saborosos quitutes. Em todo o mundo o destaque maior era e é para a Festa do Nascimento de São João. O último dos profetas que, não só preparou o povo para a chegada do Messias, mas o apresentou presente entre os homens: Jesus de Nazaré! Em 2014, nessa data, o Papa Francisco lembrou as três vocações que distinguiram São João: preparar, discernir e deixar crescer o Senhor. 

São João Batista era um homem importante, que as pessoas procuravam e seguiam, porque suas palavras eram fortes e tocavam os corações. Ele poderia, por isso mesmo, ter-se deixado seduzir pela tentação de se achar grande, autossuficiente, quando foram perguntar-lhe se era ele o Messias. Ao contrário, ele respondeu: “Sou a voz que grita no deserto”. João é uma voz, sem palavra, porque a Palavra não é ele, é Outro, é Jesus, que estava por se manifestar. Eis então, qual é o mistério de João: nunca se apoderar da Palavra, apenas apontar e se fazer voz da Palavra. Eis a primeira vocação de João Batista: preparar o coração do povo para o encontro com o Senhor. 

A segunda vocação do Batista foi o discernimento. Quando o Espírito Santo revelou a João no meio de tanta gente, quem era o Messias, ele não teve receio em dizer: “É este, o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo”. 

A terceira vocação foi a de diminuir. Ele tinha vindo para anunciar a chegada do Messias. E quando o Messias se manifestou, a vida dele começou a se abaixar, a diminuir até se anular, para que o Senhor crescesse. Esta foi a etapa difícil de João, porque Jesus tinha um estilo que ele não tinha imaginado, a ponto de que, na prisão, ele sofreu não só a escuridão da cela, mas a escuridão do coração: “Mas será que é este? Será que eu não me enganei? Porque o Messias tem um estilo tão simples… Não entendo…”. E, como era homem de Deus, ele pediu que os discípulos fossem até Jesus para perguntar: “És Tu realmente ou devemos esperar por outro”? 

Em uma outra homilia em 2013, o papa Francisco disse: “A figura de João me faz pensar na Igreja. Uma Igreja que esteja sempre ao serviço da Palavra. Que anuncia não a si mesma, mas o Senhor. Uma Igreja que saiba discernir a verdade daquilo que parece verdade, mas não é. Uma Igreja que se faz Voz, não Palavra luz. Que seja como João, luminosa, mas ciente que sua luz é reflexo do sol.

Nesses dias dificílimos em que o conjunto da humanidade encontra-se perplexa, amedrontada e, objetivamente, ameaçada pela pandemia do Novo Corona Vírus, a Memória da Natividade de São João Batista, a contemplação de sua pessoa e de sua missão, pode ajudar-nos a reerguer-nos de nossas inseguranças e medos, despertando o humano de nossa humanidade, seja pessoal ou coletiva. O isolamento, com as demais prescrições de cuidados contra o contágio, deve oportunizar-nos, como indivíduos, famílias e sociedade, a preparar um tempo novo, em que a vida nova seja marcada pelas quatro dimensões do encontro com Deus, consigo mesmo, com  os irmãos e com o ecossistema. Afinal, somos todos criaturas do amor criador de Deus!

Isso implica no discernimento joanino: a vida que vínhamos levando tornava-se a cada dia o privilégio de uns poucos, à custa da maioria mais e mais empobrecida e enferma. Vinha-se dando uma autodivinização soberba do ser humano, também dos pobres; “pobres com cabeça de rico”. Nesse tempo de CONVID 19 os privilegiados e pobres estão afetados. É hora de discernir e acreditar que o status quo ou o poder maior de consumo não levam à vida saudável e feliz. Só o amor, sem barreiras e preconceitos, leva à paz; leva, como ensinou João, ao encontro com Deus mesmo, presente no meio de nós! 

Daí a necessidade de diminuir. É hora de romper com a vaidade e o orgulho! É hora de ser, sem querer aparecer! É tempo de abrir mão de regalias e privilégios e permitir, como São João, “que ele cresça e eu desapareça”. Deixar Deus ser Deus! E deixar os demais irmãos serem gente! Para além das pandemias do Novo Corona Vírus e do sistema sócio-político-econômico-cultural excludente, a vida vence a morte! Deus é amor discreto, mas libertador! E, com João, acreditamos e anunciamos: “Eis o Cordeiro de Deus!”... no meio de nós! “Que Deus cresça e eu desapareça”! “Só Deus é Deus”! Humildade e amor-serviço por uma nova humanidade!

                                                      Medoro, irmão menor-padre pecador