
Irmãs e Irmãos amados. Pessoas de boa-vontade. A Igreja celebra nesta quaresma mais uma Campanha da Fraternidade. A CF é iniciativa de Dom Hélder Câmara nos anos 60 e foi imediatamente abraçada pela CNBB, sob a luz do Concílio Vaticano II. É desde a primeira hora uma forma concreta de caridade, de cumprir a ordem de Jesus que indica para esse tempo quaresmal o jejum, a esmola e oração como remédios contra o pecado.
O tema deste ano é “Fraternidade e tráfico humano” e o lema “É para a liberdade que o Cristo nos libertou” (Gal 5,1). A solidariedade com as pessoas em situação de vulnerabilidade, implica na defesa, cuidado e promoção da vida ameaçada, na denuncia contra todo tipo de tráfico, exploração e escravidão e na mobilização da sociedade para a conquista e garantia dos direito individuais e sociais para todos.
No Brasil, e em nossa cidade, assistimos freqüentemente passivos, várias manifestações de violência com os vulneráveis: novas formas de escravidão, tráfico de órgãos, sexual e adolescentes jogadores de futebol, discriminações raciais e sociais, comércio de drogas com as vítimas, sobretudo juvenis, do tráfico, prostituição de adolescentes, trabalhadores sob regime de insegurança (salários imorais e instabilidade no emprego), desempregados, crianças nas ruas, ...
A lista se estende muitos mais. Nossa realidade é suficiente para tomarmos consciência de nossa responsabilidade cristã que exige compaixão pela carne de Cristo ferida nos pobres, para usar uma expressão do Papa Francisco. Temos, segundo ele, que sair de dentro das igrejas e templos para ir às ruas e periferias fazer nos pobres o encontro com Jesus Cristo; condição para entrarmos no céu (cf. Mt 25).
Desse encontro com o Senhor, na pessoa do pobre, temos que abraçar o evangelho que quer “vida em abundância para todos” (Jo 10,10). É tempo de profecia, de empenho com a justiça! Não basta caridade individual. Ela tem dimensão social. Daí, o Papa afirmar, retomando Paulo VI, que “A política é a forma mais perfeita da caridade”, pois ataca não apenas as conseqüências, mas também as causas do que chamou de pecado social, segundo a mais genuína tradição bíblica.
Essa posição da Igreja certamente desagrada aos que detêm os bens da terra os meios de produção como valores absolutos, e que substituem Deus pelo capital. Quando se elege o capital como “deus” o sistema se torna uma religião que o “absoluto” exige que por ele se mate ou se morra. Uma “civilização” que desavergonhadamente se auto-intitula como cristã, usa o Deus de Jesus Cristo como um fetiche, uma espécie de cortina de fumaça para esconder que o “deus” que comanda é o dinheiro.
Na religião do Mercado “deus” se alimenta da morte do inocente, o que implica num culto da morte e do fratricídio. Esse “religião” exige um culto tautológico: se oferece a “deus” o que se oferece a si mesmo. Ora, temos que ser todos ateus desse “deus do mercado”. As conseqüências que os verdadeiros cristãos e homens de boa vontade experimentaram por isso, foram a supressão da liberdade de expressão, a repressão, o exílio, a tortura e a morte, tal qual aconteceu no Brasil com o golpe de 1º de abril de 1964.
Naquela época, a Igreja, no seu conjunto, não havia despertado para isso, pois o discurso e as praticas que preparam o golpe vieram sob o manto de defesa dos valores cristãos. Só quando nossos bispos se enfrentaram com o poder estabelecido acordaram. Era tarde! Foram necessárias duas décadas de lutas, nas quais a Igreja teve um protagonismo reconhecido mundialmente (Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, D. Waldyr Calheiros de Novaes, D. Pedro Casaldaliga, D. Adriano Hipólito, Frei Tito, Madre Maurina, e tantos outros ...) em favor da democracia com justiça e liberdade. Nesta Campanha da Fraternidade, que coincide com o cinqüentenário do golpe, voltam a ocorrer as mesmas maquinações da direita. Precisamos estar atentos, pois segundo Jesus os lobos se aproximam com pele de carneiro.
Forte abraço! Afetuosa bênção!
Medoro, irmão menor-padre pecador