Ao longo desse rico tempo quaresmal, estendido entre a quarta-feira cinzas e a quinta-feira santa a Igreja do Brasil convoca todos os cristãos/ãs e homens e mulheres de boa vontade para participar da Campanha da Fraternidade. Promovida a 52 anos pela CNBB – Conferência Nacional do Bispos do Brasil – é uma campanha temática a partir das necessidades prementes de fraternidade em nossas realidades eclesiais e sociais. Assim, nesses anos, a campanha seguiu três categorias de temas: os ligados à renovação interna da Igreja, os relacionados a questões sociais (família, saúde, educação, trabalho, ecologia) e os referentes a situações existenciais de grupos específicos e excluídos da sociedade (menor, negro, mulher, juventude, indígenas).

            Nesse ano sob o tema “Fraternidade, Igreja e Sociedade” e sob o lema “Eu vim para servir” (Mc 4,8), a Campanha se propõe aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a sociedade, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus. Trata-se de uma resposta providencial ao complexo momento nacional que atravessamos, já que, há dois anos, era imprevisível o Brasil de hoje. Naquele contexto os nossos bispos decidiram por essa temática para uma participação nas comemorações do cinqüentenário do Concílio Vaticano II. Foi neste que a Igreja atualizou, na fidelidade a Jesus, o seu encontro com a sociedade. Sob a direção dos Santos Papas João XXIII e Paulo IV, promulgaram em 1965 a Constituição Pastoral “Alegrias e Esperanças” sobre a Igreja no mundo.

            A CF - Campanha da Fraternidade - nesses dias retoma as grandes e conseqüentes orientações conciliares e refresca a memória da Igreja como comunidade dos seguidores de Jesus a serviço da vida. Daí, o lema sabiamente escolhido, “Eu vim para servir”; síntese mesma da identidade, da autoridade, da vocação e missão do Filho de Deus entre nós. Servir à vida é por isso mesmo a razão da Igreja, sob o mandamento absoluto do Senhor: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12). Aqui brota o Hino da CF: “Quero uma Igreja solidária, servidora e missionária, que anuncia e saiba ouvir. A lutar por dignidade, por justiça e igualdade, pois, "eu vim para servir". Servir à Vida e à Fraternidade, autenticação da veracidade de toda espiritualidade que reivindica o nome de cristã.

            Recordemos que Jesus do seu nascimento até a cruz casou com a pobreza e eternizou essas núpcias no mistério de sua ressurreição e ascensão aos céus. Nasceu numa manjedoura em Belém, como pobre; realizou o seu primeiro êxodo, com seus pais, no Egito, para não morrer assassinado, ainda criança, por Herodes; cresceu em estatura, sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens; morando cerca de trinta anos, no anonimato e no silêncio, em Nazaré; saiu de casa, após o batismo no Rio Jordão, para evangelizar os pobres, libertar os presos, recuperar a vista dos cegos, dar liberdade aos oprimidos e anunciar o ano da graça do Senhor; escolheu discípulos entre pescadores e pecadores para colaborar com sua missão; amou, acolheu a todos, curou os que sofriam de enfermidades e ressuscitou os que haviam morrido.

Em tudo isso, fazendo a vontade do Pai até a morte, e morte de cruz; morrendo como o grão de trigo debaixo da terra (Jo 12,24), para dar frutos, para dar vida; ressurgindo para a vida eterna; em suma, dizendo: “eu vim para servir” (Mc 4,8), “para que tenham vida e a vida em abundância” (Jo 10,10). No final dos tempos, Ele afirmou, que se manifestará identificado com os pobres a quem a Igreja deve igualmente servir (Mt 25). Daí que na instituição do Sacramento da Eucaristia condiciona a comunhão com ele à comunhão com os pobres: lavou os pés dos discípulos e disse: “Dei-vos o exemplo, para que façais o mesmo” (Jo 13,15). . A Igreja com esta Campanha deseja cumprir fielmente esta sua missão. Uma Igreja que não esteja a serviço da sociedade é uma Igreja que trai o seu fundador.

Medoro, irmão menor-padre pecador