Ainda, e espero que durante muito e muito tempo, o assunto é o Papa Francisco.  Como o Santo, cujo nome escolheu como seu, que surgiu inopinadamente para reconstruir a Igreja de Cristo, como João XXIII, que surpreendeu o mundo com o Concílio Vaticano II e a Face Humana de Deus, Francisco veio de Buenos Aires, da Nuestra América (ou Pátria Grande como preferem outros) para resgatar a Igreja.

E aqui, certamente, não se refere a Igreja de concreto, pedras, telhas, móveis... mas a Igreja em espírito encarnada em milhões de homens e mulheres de todo o mundo, em comunhão com a carne e o sangue de Jesus Cristo.

Sobre essa presença de Francisco, quase onipresença, falaram nos últimos dias duas vozes categorizadas. O Primeiro foi Frei Leonardo Boff, reconhecidamente um dos maiores teólogos do mundo e mártir do Concílio Vaticano II. Dando prosseguimento a série de manifestações, que vem fazendo desde a escolha de Francisco, em que sempre se mostra esperançoso com os novos tempos que estão chegando, Leonardo Boff fala que a mais importante mensagem do papa talvez seja sua própria imagem.

“Francisco – diz Boff – é um humilde servidor da fé, despojado de todo aparato, tocando e deixando-se tocar, falando a linguagem dos jovens e as verdades com sinceridade. Representa o mais nobre dos líderes, o líder servidor que não faz referência a si mesmo, mas aos outros com carinho e cuidado, evocando esperança e confiança no futuro”.

Ainda nessa linha, nos lembra Boff, Francisco criticou tem criticado duramente um sistema financeiro que descarta dois polos: os idosos, porque já não produzem, e os jovens não criando-lhes postos de trabalho. Dessa forma, os idosos deixam de repassar sua valiosa experiência, enquanto os jovens são privados de construir o futuro. O que se vê com isso, é uma sociedade que pode desabar.

Para enfrentar essa situação terrível,  Francisco propõe a “humildade social”, que é falar com todos “olho no olho, entre iguais e não de cima para baixo”. Essa visão no campo religioso se manifesta na posição verbalizada pelo Papa. Para ele, os “jovens perderam a fé na Igreja e até mesmo em Deus pela incoerência de cristãos e de ministros do evangelho”. Essa crítica nos lembra Leonardo Boff, foi mais dura ainda quando se dirigiu aos bispos do nosso continente.

A “Revolução da ternura” pregada por Francisco, respeita a diversidade religiosa, não tem medo do mundo moderno, “quer trocar-se e inserir-se num profundo sentido de solidariedade para com os privados de comida e de educação. Todas as confissões devem trabalhar juntas em favor das vítimas. Pouco importa se atendimento é feito por um cristão, judeu, muçulmano ou outro. O decisivo é que o pobre tenha acesso à comida e à educação. Nenhuma confissão pode dormir tranquila enquanto os deserdados deste mundo estiverem gritando”.

Essa “Revolução da Ternura” tem/terá o protagonismo dos jovens. Para Francisco, serão eles, sendo “revolucionários” e “rebeldes”, que abrirão a janela (ou melhor, porta?) do futuro. É dessa forma que se superará o restauracionismo de tantos, o utopismo de alguns, “pois é no hoje que se joga a vida eterna”. Para isso, afirmou Leonardo Boff, precisamos da juventude com “entusiasmo, criatividade, para ir pelo mundo espalhando a mensagem generosa e humanitária de Jesus, o Deus que realizou a proximidade e marcou encontro com os seres humanos”.

O  outro, é um leigo, o jornalista uruguaio Esteban Valenti. Lamentando o deserto de lideranças em que vive o mundo, afirmou que “até agora a Igreja Católica estava sumida nessa mesma crise de referentes que a política, que os governos, se parecia mais com um reino transnacional com uma mensagem evangélica que uma religião que se concentra nos valores, no povo de Deus, em atrair com o exemplo e com as virtudes que predica e em muitos casos não pratica”.

Mas aí, diz ele lembrando os escândalos vividos pela Igreja, chegou Francisco: “como ele próprio se define, é um padre de rua. No princípio eram detalhes, mas nesses pouco mais de 100 dias, viu-se que não são apenas os sapatos comuns, ou a malinha com seus objetos pessoais, ou sua negativa a viver no cerco de seu real apartamento no Vaticano. É muito mais”.

E em seguida, Esteban lista a forma como Francisco se misturou ao povo nas ruas do Rio (e de Roma). “O Papa se arrisca, confia nas pessoas e que aconteça o que Deus quiser. Em um mundo de medos extremos, de dirigentes blindados, ele se expõe. Já não são apenas mensagens, já não é uma postura, é toda uma visão que transmite”.

Essa visão, segundo Esteban, é permanentemente a favor dos mais débeis, dos pobres, dos que protestam e não se resignam à injustiça, a favor da UTOPIA... em um mundo de realismo feroz e não precisamente mágico, é uma mensagem muito forte. Ao decidir morar na Casa Santa Marta, onde ficam os bispos e padres de todo o mundo quando vão até Roma, Francisco abriu um canal de comunicação direta com eles e pode “assim sentir o pulso de sua igreja. É um método e uma mensagem”. Essa comunicação direta entre bispos e sacerdotes e o Papa, sem passar pelo filtro da outrora toda-poderosa cúria romana “é uma reforma profunda e radical”.

A conclusão de Esteban Valenti é cheia de esperança, otimista, e alegra a todos nós: “O Papa saiu para disputar os corações, as almas e a moral de milhões de pessoas no mundo, em particular dos jovens com uma mensagem de valores, não apenas proclamados como Evangelho, mas como uma forma de vida”. Essa, lembra ele, é uma mensagem que andava dispersa, como um impulso que foi se esgotando, dispersando, confundido nos luxos do poder, mas, “é a mensagem original da igreja católica”.

Ao que nós podemos acrescentar plenos de alegria e esperança: Francisco, então, não é novidade, é origem, É volta da Igreja aos caminhos que nunca pode abandonar, sob pena de deixar de ser Igreja.

Medoro de Oliveira