
“A glória de Deus é a pessoa humana de pé!”
(Santo Irineu, sec. II).
Semana passada abordamos o Estado. Para isso utilizamos o lema da 5º Semana Social da Igreja, que é “Estado para que? Para quem?”. Também falamos que essa discussão seria melhor aprofundada na 1 ª Semana Regional de Fé Política, que será realizada na Paróquia de São José Operário entre os dias 3 e 7 de setembro. Neste artigo, já a partir do título, focamos um outro tema que estará presente no nosso seminário: Fé política: a novidade do ser cristão.
O que quer dizer isto? A originalidade do judaísmo em relação às religiões contemporâneas do Antigo Testamento foi perceber já com Abraão e Moisés que o encontro com Deus se faz na história, onde o Deus que escuta o clamor do povo intervém para libertá-lo (Ex 3,7). Muitas vezes o povo se afasta de Deus, cai na idolatria e os sinais disso, condenados veementemente pelos profetas, são a exploração dos pobres, a opressão dos humildes e estrangeiros, o descaso pelas viúvas, a exclusão dos leprosos. Uma religiosidade fervorosa, verticalista, sem a justiça e a misericórdia é condenada como blasfema, pois toma o santo nome de Deus em vão (Is 58).
Jesus, o Filho de Deus radicaliza essa novidade da religião judaica, fazendo da pessoa humana o absoluto de Deus. Em Jesus, Deus morre de amor por seu povo. De fato, no nascimento Jesus casou com a pobreza: aceitou ser filho de uma mulher que correu o risco de ser discriminada como “mãe solteira” (Lc 1,33), nasceu sem teto, entre os pastores, social e religiosamente excluídos (Lc 2,7-9), comeu com pecadores (Lc 5,27-32), morreu entre dois bandidos (lc 23,33) e no fim do mundo aparecerá identificado com os pobres, famintos, doentes, sem-tetos, oprimidos e presidiários (Mt 25, 31-45). E deixa como mandamento novo para a Igreja, o amor fraterno (Jo 15,12).
Assim, até o nascimento do Filho de Deus entre nós, há aproximadamente 2012 anos, todas as formas de religiosidade eram manifestações de verticalismo. Até, a prática comum dos judeus fervorosos se distanciou daquela perspectiva histórica da fé judaica original. Ou seja, a relação do crente com o seu deus, mesmo quando esse deus era o nosso Deus, o Deus de Israel, era exclusivamente vertical. Isto é, o indivíduo e Deus numa relação de exclusividade, que não levava em consideração a vida ao redor.
A partir de Jesus Cristo, a relação do crente com Deus muda totalmente. Ela passa a ser também de horizontalidade, na medida que os irmãos passam a fazer parte da relação. O encontro com Deus agora é mediatizado pelo irmão, especialmente o empobrecido. A relação é de comunhão. Nossa ligação com Deus só se dá na medida da nossa ligação com os nossos irmãos (1 Jo 4,20-21).
Como essa vida em comunhão, comunitária portanto, exige viver o coletivo, interessar-se pela vida da coletividade, passa a não se ter escapatória: a fé se expressa fundamentalmente através da forma de se viver – se relacionar portanto – com os irmãos na comunidade.
Essa expressão da fé, que necessita da ação, do envolvimento na vida dos irmãos, exige o exercício ativo da cidadania, implica, sim, o envolvimento com a política. Não existe outro caminho para se buscar a justiça social, o bem estar da comunidade, os direitos dos filhos de Deus que o caminho da política. E política aí entendida como atividade para além da política partidária, da disputa eleitoral. Mas também como exercício ativo da cidadania nos movimentos populares, nos locais de moradia, estudo, trabalho, nos sindicatos e associações e, porque não? Até mesmo na Igreja.
Daí a afirmação contida no título de que a Fé Política é uma novidade do cristianismo. A fé do cristão necessita da prática política para poder ser vivida em plenitude. O amor de Jesus Cristo, como sabemos, foi de tal forma uma ação afirmativa em favor da vida e da fraternidade que foi condenado à morte pelos poderes políticos do seu tempo: a hierarquia religiosa judaica e os poderes (civil e militar) local e romano.
O cristianismo nasce pois com Jesus Cristo condenado politicamente como um judeu blasfemo e subversivo. E com a condenação dos primeiros cristãos que no Movimento de Jesus, doam como mártires a vida por serem ateus do deus fetiche do poder romano e da prática infiel dos judeus. A vida cristã vai implicar sempre, ao longo da história, numa atitude política constitutiva. Quando os cristãos ou a Igreja se furtaram a isso o núcleo da mensagem de Jesus Cristo foi ideologizado em função da manutenção do status quo. Ou a fé é política ou não é Fe cristã!
Medoro de Oliveira