“Mãe Aparecida dando saúde, trabalho e moradia”

(Refrão da 25ª Romaria dos Trabalhadores à Aparecida)

A música do Vale dos Tambores é a trilha sonora da emoção que dá energia a esperança plantada nas noites em que se desenvolveu entre nós a 1ª Semana Regional de Fé Política, que como já sabem os leitores desta coluna, surgiu do nascente Movimento Fé e Política, e foi assumida pela Caritas Diocesana de Valença, como parte da a 5ª Semana Social Brasileira, da Pastoral Social da CNBB, sob o tema “Estado: Para que? Para quem?” Mote do Grito dos Excluídos deste ano.

O momento inicial do evento, na noite de segunda-feira, dia 3, simbolizou claramente o que estava por vir: um vídeo com a oração de Zé Vicente em homenagem aos nossos mártires da caminhada como Chico Mendes, Wilson Pinheiro, Margarida Maria, Padre Josimo, Padre Bounier, Irmã Doroty e tantos outros cristãos cujas vidas foram tomadas pelos que não aceitam que se lute pela concretização da vontade de Deus, transmitida pelas Palavras de Jesus.

Nas horas e dias que se seguiram, o que assistimos, vivemos, foi uma harmônica e viva continuidade. Logo após a projeção do vídeo, falou o Padre Décio Epifânio, da Paróquia de Rio das Flores e Responsável pela Cáritas Diocesana. Ele fez uma reflexão cristalina sobre o tema do Grito dos Excluídos e a Semana Social. Ainda pela Cáritas a coordenadora Neuza fez uma saudação agradecida por poder ser esta nossa iniciativa o primeiro gesto da 5ª Semana Social em nossa diocese Os demais oradores da primeira noite, Pedro Ribeiro, Tereza Sartório e Alessandro Molon, demonstraram a profunda conexão da Carta de Princípios – da qual tanto já falamos aqui – do Movimento Fé e Política com o Evangelho de Jesus Cristo.

Mostraram isso com palavras simples, pois os sábios falam de forma simples enquanto os medíocres recorrem aos termos complicados tentando disfarçar sua ignorância. Pedro Ribeiro interpretou a Carta, Maria Tereza deu testemunho dos esforços feitos junto principalmente aos mais jovens e Molon emocionou com seu testemunho de fé, militância, das dificuldades em se manter as duas atividades ligadas e fortes e de como se é possível esse exercício no cotidiano.

O tema “Fé Política: Novidade Cristã”, da noite de terça-feira,4, foi desenvolvido por este pároco, por Celso Carias e pela Irmã Ana Maria Soares Vicente. Como já ocorrera na noite anterior, o encadeamento das palavras dos oradores, sua articulação com o público, proporcionaram momentos de reflexão profunda e de comunhão geradora de esperança. Celso Carias, com sua experiência de professor de Teologia na PUC, demonstrou a conexão profunda do Evangelho com a prática política transformadora. Ana Maria, de forma didática desenvolveu a questão da transparência necessária, das formas de fiscalização da administração pública e do controle do legislativo.

A noite de quarta-feira, 5, foi aberta com as palavras de Gilberto Simplicio. De forma simples, didática e objetiva, ele falou sobre o que é o Estado. Como ele funciona e como os mais pobres podem se organizar e lutar para colocá-lo a seu serviço. Helid Raphael de Carvalho, falou sobre a exigência do Grito dos Excluídos, contida na frase “queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta os direitos a toda população”. Em seguida falou Ivo Lesbaupin, um dos mais respeitados estudiosos ligados ao Movimento Fé e Política. Com palavras extremamente simples e acessíveis, ele demonstrou que apesar dos grandes avanços recentemente verificados, particularmente na área social, ainda existe uma  enorme injustiça e desigualdade em nosso país, o que pode ser verificado nos gastos efetuados pelo Governo com o pagamento dos juros da dívida pública.

Ivo falou sobre as formas da sociedade se organizar para lutar e defendeu uma auditoria na dívida. Lembrou que a última vez em que isso foi feito no país, no início da década de 30 do século passado, verificou-se que mais de 60% do que era cobrado não era devido.

Na quinta-feira, 6, a noite foi dedicada a atividade cultural com o Grupo de Choro dos Maestro Wander. Mas, mesmo assim, falou-se da boa política. O músico, compositor e pesquisador Carlos Henrique Machado, apresentou sua tese baseada em Mário de Andrade, sobre a rica herança cultural do Vale dos Tambores. Ele dá essa denominação a nossa região por lembrar que a época considerada áurea do chamado Vale do Café, foi tempo de extrema violência, pois se baseava na tirania da escravidão. Após esse momento cultural fomos à 25ª Romaria dos Trabalhadores, em Aparecida, para o Grito dos Excluídos.

Em síntese foi isso. A Semana, cujo comparecimento de público teve uma média de 76 pessoas, marcou a entrada em cena do Movimento Regional de Fé e Política, que já tem a proposta de passar a ser chamado de Fé Política. Tudo ocorreu num clima de comunhão e fraternidade, reunindo pessoas representativas no movimento social, sindical, popular, jovem, ligadas as pastorais sociais da Igreja não só da comunidade de São José Operário, mas das outras paróquias de Três Rios e dos municípios vizinhos, de Paraíba do Sul e Levi Gasparian principalmente.

Para esse sucesso contou-se com a colaboração de um grande número de pessoas a quem agradeço através desta coluna. São muitas e o espaço é pequeno para que cite todas, sendo injusto que cite apenas algumas. Resta dizer que o “batizado” foi muito alviçareiro e por isso a esperança é que a participação dos cristãos na luta política pela transformação do Estado e da sociedade se intensifique em nossa cidade e região nos  próximos tempos.

Medoro de Oliveira