
Irmãs e irmãos de fé e homens e mulheres de boa vontade. Hoje, na Oficina de Nazaré (Igreja de São José Operário – Triângulo), às 19,30 horas, a Pastoral Afro-Trirriense realiza um encontro para refletir a situação da comunidade negra em nossa sociedade e para reavivar no coração de todos o valor da fraternidade sem exclusão. Abraça assim, a inclusão como pauta principal de suas atividades, bem como de todo movimento da consciência negra. Amanhã, nessa mesma perspectiva a Missa Afro-inculturada deve nos unir a Jesus Cristo, o irmão universal.
São muitas e diversificadas as situações da comunidade afro-descendente no Brasil que desafiam os seguidores de Jesus Cristos e à toda a nação brasileira. Aliás, uma realidade de violência que se arrasta desde 1500 com os desfavoráveis índices sociais: analfabetismo, saneamento básico, assassinatos pela polícia, desemprego, repetência escolar; além rara existência de negros como professores universitários, juízes e bispos. Essa discriminação, além da desigualdade, gera uma baixo auto-estima que leva 3 entre 4 negros manifestar o desejo de terem nascidos brancos.
Destacamos como vítimas principais dessa realidade discriminatória os jovens, objetos da violência policial. Lembremos, por exemplo, dos “autos de resistência” que constituem um mecanismo legal que autoriza os policiais a utilizarem os meios necessários para atuar contra pessoas que resistam à prisão em fragrante. Ora, contra os jovens negros são utilizados freqüentemente de forma abusiva seguidos de morte. Trata-se pois, do instrumento mais eficaz para esconder o motivo do alto índice de matança de jovens negros.
Outro destaque nos vem das pesquisas que mostram que no atendimento às mulheres grávidas, os médicos dedicam às mulheres negras, em média, a metade do tempo que dedicam às mulheres brancas. É a discriminação do negro que se estende no campo de futebol (lembremos do episódio do goleiro Aranha, do Santos, vitima de ofensas racistas no jogo com o Grêmio), nas redes sociais e em todos os setores da sociedade brasileira. Precisamos do apoio de toda a sociedade para virar este “jogo” da discriminação do negro.
A Pastoral do Negro, criada em 1986 em nossa cidade pelo saudoso Pe João José da Rocha, nasceu já com esse perfil de promover a inclusão religiosa, cultural e social do negro. A inclusão de símbolos religiosos de origem africana nas Missas inculturadas vem possibilitando o fiel negro exprimir a fé cristã segundo sua índole religiosa e crescer no pertencimento eclesial. Do ponto de vista cultural continua prioridade o resgate da beleza negra. E socialmente o combate a toda discriminação e a luta pela inclusão são missões imperativas, indeclináveis e imediatas.
Nesse ano, o ponto de partida de nossa reflexão são as personagens negras na Bíblia. Recordemos, a título de exemplos, que Agar, mãe do primeiro filho de Abraão, Ismael, era negra (Gn 10,6; 1 Cron 1,8), como a esposa cuxita de Moisés (Nm12,1) e o Profeta Sofonias era filho de negro (Sf 1,1); como também a famosa Sulamita (Ct 1,5). Ebede Meleque foi quem salvou o Profeta Jeremias (Jr 38,6). O famoso Cântico de Myriam de origem africana (Ex 15,19-21) tornou-se o Magnificat de Maria que condena os poderosos e resgata o humildes. O Simão de Cirene que carregou a cruz com Jesus era igualmente negro. Ainda o eunuco, que pediu o Batismo (At 8,26-38). Há um protagonismo próprio dos negros na Bíblia, exemplares para o presente.
Esperamos que esses dois dias de celebração, a partir de Zumbi dos Palmares, despertem novos cidadãos cristãos para a caminhada afro-pastoral. Estimule igualmente os atuais agentes de pastoral do negro a abraçar a luta por políticas públicas, especialmente para a inclusão da afro-juventude. E nesse tempo jubilar de implantação de novos Círculos Bíblicos – Uma Igreja em cada rua – possam as personagens bíblicas negras alimentar a fé e despertar um protagonismo dos fiéis afro-descendentes por uma sociedade de iguais.
Medoro, irmão menor – padre pecador