
No feriado de 20 de novembro para celebrar a memória do grande líder negro Zumbi dos Palmares e o Dia da Consciência Negra, a Pastoral Afro-trirriense festejou ao longo de todo o dia, na Oficina de Nazaré – junto à Igreja de São José Operário, no Triângulo – o resgate do Vale dos Tambores. Uma Missa Afro-inculturada abriu o evento, que seguiu com apresentações de rodas de jongo, capoeira, maculele, choro, samba, pagode e escolas de sambas, além de um almoço preparado pela cozinha afro-descendente. Um dia de festa, precedido por três noites de Seminário sobre Três Rios, capital do Vale dos Tambores. E isso porque a nossa cidade foi o primeiro município a se emancipar após a abolição da escravatura e da proclamação da república. Até então, maldito vale do café. A partir de então Vale dos Tambores, como veremos abaixo.
Na primeira noite foi debatido o filme de J. C. Salles, “O Vale”. Ali deteve-se sobre as conseqüências humanas e ecológicas do projeto econômico equivocado e fratricida do café. O vale do café não tem o que comemorar, pois a riqueza dos barões foi à custa do trabalho escravo sob as práticas de tortura e genocídio de índios e escravos e também da destruição radical da mata atlântica e sem resultado duradouro, pois assistimos hoje os herdeiros dos barões em situação de pobreza, como um bisneto de uma fazenda da região sobrevive sacrificadamente vendendo ovos de casa em casa em cidades da região, como prova o filme O Vale. E a nossa cidade hoje com o risco do envenenamento a partir dos gazes produzidos pelo progresso recente, sem vegetação para purificar o ar que respiramos. Necessidade urgente de projetos de arborização da cidade e de reflorestamento das fazendas circunvizinhas.
Na segunda noite debruçamos sobre as expressões da única fé cristã no candomblé, na umbanda e no catolicismo inculturado, sob o tema A religiosidade dos tambores dos três rios (Paraiba, Preto e Piabanha). O Candomblé conserva maior originalidade por sua fidelidade às origens da mãe áfrica. A Umbanda já nasce do sincretismo entre das três religiosidades africana, indígena e católica. A Igreja Católica valoriza por sua vez uma religiosidade popular em que a fé se exprime em símbolos inculturados e incentiva a Pastoral Afro-descendente na defesa dos direitos humanos das comunidades negras, na valorização da cultura remanescente inculturando também sua liturgia e no resgate dos valores plenamente consoantes com a proposta de Jesus Cristo.
Na terceira e última noite discutimos o tema Os o delta dos três rios, ícone da Cultura dos Tambores dos indígenas, brancos e negros. Três etnias que confluíram nessa região para a riqueza maior que é a comunidade humana plural e una, trabalhadora e festeira, vigorosa e terna. Valores que se exprimiram na riqueza dos ritmos, das músicas, das cores, das artes e dos ritos religiosos. Tudo fruto de santa e audaciosa resistência coletiva dos negros, cuja mais alta expressão se deu no Quilombo de Manoel Congo, próximo à vila de Barão de Vassouras, que enfrentou com altivez o massacre dos barões do café tocando, com suas crianças, velhos, adultos e jovens, mulheres e crianças, 400 tambores. Como a genuína música brasileira, o samba – e mais precisamente o choro -, segundo o pesquisador e músico mais respeitado, Mário de Andrade, nasceu nessa região entre os vales dos rios Paraíba do Sul e do Preto, devemos reivindicar essa autoria e em honra a essa memória batizar a nossa região como Vale dos Tambores. Quiçá nos façamos conhecidos no cenário nacional que possamos vir a ser a capital do Festival de Música Popular Brasileira, que busca sua casa original.
No dia 20 celebramos a Missa – presidida pelo Pároco de Levi Gasparian, Pe Pretinho - por todos os negros vítimas da violência, especialmente a memória de Zumbi dos Palmares. Rezamos igualmente por todos os que resistem a toda e qualquer discriminação e luta pelos direito humanos e universais. Uma celebração inculturada com a presença dos “sacerdotes” das religiões de matriz africana: Rogério do Candomblé e Gilmar Borsato do Umbanda. Nas rodas culturais e no almoço o en-canto e o sabor dos Tambores de Zumbi: festa e luta, memória e profecia! Em consonância com a temática 13º Encontro Inter-eclesial as Comunidades Eclesiais de base - “Justiça e Profecia a Serviço da Vida”; e o lema: “CEBs, Romeiras do Reino no Campo e na Cidade” – e d 9º Encontro Nacional do Movimento Fé e Política - Cultura do Bem Viver: Partilha e Poder.E tudo isso e com sua participação gestando a capital do Vale dos Tambores: Três Rios!
Medoro de Oliveira