Celebramos nos próximos dias a Festa de Todos os Santos e o Dia dos Finados, nos dias 01 e 02 de novembro respectivamente. Na Tradição Cristã são festas que homenageiam àqueles que chegaram à plenitude da vida, ultrapassando o próprio limite biológico. Assim, finados e santamente eternizados. Daí os dois sentimentos humano-cristãos: esperança e saudade! Não é, pois, por acaso, que a Festa de todos os Santos antecipa a comemoração dos fiéis defuntos, dos Finados. A esperança dá sentido à saudade.
    Entendemos a santidade de todos os filhos e filhas de Deus a partir da contemplação de Deus como o Santo. Só Deus é santo! (Cf.1Sm 2,2; Sl 22,3; Is 6,3; Ap 15,4). Santo (= Kadosh) é uma expressão bíblica, hebraica que significa que Deus é totalmente outro, está além de tudo e de todos; diverso de toda criação, que não pode ser confundido com as criaturas. Sendo Ele o Santo, quis que nós seus filhos participássemos de sua santidade: “sereis santos, porque eu sou santo” (Lev 11,44). Dai, nas comunidades do Novo Testamento, os cristãos se tratarem como “santos e irmãos bem amados” (Col 3,12; Rm 1,7;...). O Batismo nos incorpora a Jesus Cristo, nos faz santos!
    Aos irmãos e irmãs que deixaram inequívocos testemunhos de santidade, a Igreja os reconhece e os denomina como santos e santas. E isso é feito com rigoroso critério num longo processo de reconhecimento da santidade daqueles que brilharam como modelos de vida cristã: é o processo de canonização! E este deve ser confirmado com dois milagres, atribuídos ao intercessor junto de Deus, que ultrapassam à normalidade das leis biológicas e cientificas afins. Assim, quem a Igreja proclama santo ou santa deverá ter realizado dois milagres. Exceção para os mártires que testemunharam sua santidade derramando o próprio sangue como Cristo. 
    Todavia, todos os fiéis, nossos irmãos e irmãs, falecidos que estão nos céus são verdadeiramente santos e santas, pois ali participam plenamente da vida divina, da santidade de Deus. Não estão canonizados com suas imagens em nossos altares e oratórios, mas são santos. Da multidão de santos e santas que, segundo o Livro do Apocalipse, dia e noite contemplam e adoram a Deus no céu (Apocalipse 5,8;8,4), a Igreja escolhe, pois, apenas alguns cujo o testemunho possa alimentar a fé e a caridade cristã quotidianas. Dai, a correta veneração, e não adoração, dos ícones e das imagens  pela comunidade católica desde os primórdios do cristianismo.
    Aqui cabe um esclarecimento àqueles que impropria e injustamente acusam-nos de adoradores de imagens. O que a Bíblia proíbe e condena é fazer imagens de Deus para adora-las no lugar de adorar a Deus. Isso seria a idolatria (Êxodo 20:4-5). Mas nas Sagradas escrituras podemos ver atestadas a legitimidade do uso das imagens (Ex 25,17-22; 37,7-9; 40,18; Nm 21,8-9; 1Rs 6,23-29.32; 7,26-29.36; 8,7; 1Cr 28,18-19; 2Cr 3,7.10-14; 5,8; 1Sm 4,4; 2Sm 6,2; Sb 16,5-8; Ez 41,17-21; Hb 9,5…). Essa reflexão, todavia, deveria abrir nossas consciências e corações para que valorizássemos e fizéssemos valorizar a única imagem de Deus: a pessoa humana (Gn 1,26). Deus, em Jesus Cristo, adorou essa sua imagem, a ponto de morrer pela salvação de todos nós.
    Por tudo isso e muito mais, a Festa de todos os Santos deve ser uma oportunidade privilegiada para, contemplando os santos e santas que nos precederam na vida eterna, assumirmos de forma mais radical a nossa vocação universal à santidade. Esta implica fé crescente Trindade Santa e amor generoso a todos, principalmente aos pobres excluídos do acesso igualitário, livre e justo aos bens da criação. É um convite-convocação aos cristãos para o seguimento de Jesus Cristo, em comunidade e no compromisso com os empobrecidos. “Sede santos, como o Senhor é santo” (1 Pedro 1,16).
                                                      Medoro, irmão menor-padre pecador