Buscamos celebrar com fervor e sincera coerência de vida esses dias da Semana Santa, como seguidores de Jesus Cristo que, com Ele e como Ele, queremos chegar à alegria da Ressurreição, à Vida Eterna. A rica e piedosa dinâmica litúrgico-catequética desses dias nos proporcionam um mergulho no Mistério do Crucificado e Ressuscitado. E aqui podemos reencontrar o caminho e o rumo do ser cristão, pois a celebração da paixão, morte e ressurreição de Jesus é como que uma síntese do que foi a vida toda do Homem de Nazaré e Filho de Deus. Aliás, já havia dito no inicio de sua missão àqueles que convidou para discípulos/as: “Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!” (Mt 16,24). E quando na última Ceia, interpelado por Felipe, afirma “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai, senão por mim” (Jo 14,6).

            A crise vivida por Jesus no Getsêmani (Mt 23,26), deveria refletir a possível crise de todos os seus seguidores: ultrapassar a festa gloriosa de Ramos, no caminho do amor-serviço, que implica na rejeição, exclusão, solidão e condenação à morte e morte de cruz. Mas os seus discípulos frente a recusa violenta que Ele sofria recuaram, abandonaram e negaram o discipulado. Aos pés da cruz só Maria, João e algumas poucas mulheres ficaram com o Senhor (Jo 19,25). Desde então esta tem sido a crise no interior do cristianismo: superar a dialética de exclusão – isso ou aquilo – por aquela inclusiva vivida por Jesus: para se chegar à Páscoa tem-se que passar por Ramos e pela Paixão. Sim. O nosso desafio tem sido encontrar a síntese entre fé e vida, oração e ação, louvor e amor, piedade e caridade, misericórdia e justiça, festa e práxis, sagrado e profano...

            Vivemos um momento histórico crucial em que a Igreja está desafiada, como Jesus, a abraçar a Cruz para tirar da Cruz todos os crucificados; todavia, num contexto religioso pós-moderno que prioriza quase radicalmente a louvação no interior dos templos e o intimismo religioso contra a missionariedade, especialmente junto aos empobrecidos, violentados e descartados da sociedade. O caminho cristão parece parar no Domingo de Ramos. De fato, constatamos não só as igrejas católicas mas também os incontáveis templos ditos evangélicos lotados de mulheres e homens religiosos festejando o sagrado, mas fechados à fé genuinamente cristológica que exige assumir a missão de Jesus – “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10) – e cumprir o seu Mandamento novo, legado da última ceia: “O que eu vos ordeno é que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15,12).

            Assim, para bem celebramos a Páscoa do Senhor, o Papa Francisco, no último Domingo de Ramos, exortou a todo mundo católico a internalizar e praticar o Projeto de Jesus. “Para seguir fielmente a Jesus, peçamos a graça de o fazer não por palavras mas com as obras, e ter a paciência de suportar a nossa cruz: não a recusar nem jogar fora, mas, com os olhos fixos n’Ele, aceitá-la e carregá-la a cada dia. (...) Este Jesus, que aceita ser aclamado, mesmo sabendo que O espera o «crucifica-o!», não nos pede para O contemplarmos apenas nos quadros, nas fotografias, ou nos vídeos que circulam na rede. Não. Está presente em muitos dos nossos irmãos e irmãs que hoje, sim hoje, padecem tribulações como Ele: sofrem com o trabalho de escravos, sofrem com os dramas familiares, as doenças... Sofrem por causa das guerras e do terrorismo, por causa dos interesses que se movem por trás das armas que não cessam de matar. Homens e mulheres enganados, violados na sua dignidade, descartados.... Jesus está neles, em cada um deles, e com aquele rosto desfigurado, com aquela voz rouca, pede para ser enxergado, reconhecido, amado.”

            Leitor, caríssimo: abençoada Páscoa!

Medoro, irmão menor-padre pecador