
Uma vez mais a Comunidade Católica festejou com brilhantismo a Solenidade do Corpo de Cristo. As ruas foram ornadas com beleza ímpar e, ao mesmo tempo, os tapetes florais recordavam os grandes temas da ação missionária da Igreja hoje. Foram crianças, jovens, adultos e idosos de todas as classes sociais os artistas da fé na Eucaristia. A Liturgia Eucarística reuniu mais de três mil fiéis, que tiveram o seu fervor na Presença Real do Senhor Jesus nas espécies do pão e do vinho consagrados aquecido, à luz da rica e comovente pregação do querido Pe Geraldo Dias. Seguiram-se a Procissão e a Bênçãos do Santíssimo Sacramento pelos demais padres co-celebrantes. Uma rica e inesquecível experiência mística do Senhor entre nós.
Antecedeu, todavia, a essa magnânima festividade dois lamentáveis, dolorosos e hediondos episódios que feriram gravemente o Coração Eucarístico de Jesus. Uma ação policial repressiva do tráfico de drogas, na querida e vizinha cidade de Paraíba do Sul foi exposta pela mídia regional e chocou a todos de bom caráter e de mínimo senso de humanidade e responsabilidade pelo próximo e também pelo bem comum. A cidade sul-paraibana parou e sua população atônita e naturalmente dividida se conglomerou junto à delegacia legal e surpreendida e impotente assistiu ao horrendo episódio da “deportação” de seus filhos e filhas para o “zoológico” sistema prisional do estado, a “faculdade de bandidos”, para usar a expressão do Secretário de Segurança Mariano Beltrame.
Imediatamente à véspera da Solenidade Eucarística, na calada da noite, no coração de nossa querida Três Rios, foram covardemente assassinados dois moradores de rua, reconhecidos como pacíficos, segundo o testemunho da Comunidade Espírita que os assistia. E, no dia seguinte, nova ação policial intimidava a comunidade do Bairro Ponte Seca. Ali, coincidentemente no ano passado, foram também assassinados dois jovens dependentes químicos. E a comunidade como que sobressaltada comenta à boca miúda que um “esquadrão da morte” está por ali a iniciar sua atuação por julgar que já não há outros recursos para repressão do tráfico. Por ocasião da Visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora Aparecida já ouvíamos as orações de murmúrio contra essa ameaça inconstitucional de violência.
Tivéssemos espaço e tempo deveríamos, mediante uma análise critica, desnudar esses episódios que, longe de serem curativos ou preventivos, são na verdade espetáculos de crueldade que no “teatro da vida” condiciona os espectadores a se equivocarem em relação aos verdadeiros responsáveis pelo crescimento do número de dependentes químicos e conseqüentemente do tráfico e da violência. Espetáculo que deixa imperceptível e intocável esses verdadeiros responsáveis de tamanha desgraça social; sejam os senhores do tráfico, sejam as forças repressivas constitucionais cooptadas pra sua defesa.
Saber que mais de 3600 filhos de nossa cidade, estão exilados e enjaulados como criminosos de alta periculosidade deve, não só nos envergonhar, mas suscitar atitudes cidadãs capazes de minorar tamanha tragédia social. Sim. Até porque se sabe que praticamente 80% deles não são bandidos, mas doentes, dependentes químicos que cometeram pequenos delitos para manter o próprio vício. Isso brada aos céus, pois não é caminho de solução, mas uma barbárie daqueles que querem a todo custo fazer crescer o seu “negócio” fratricida. E, por isso, levam cada vez mais à escravidão nossos adolescentes e jovens.
Ao redor de tudo isso, como que moldura sacrílega desse quadro infernal, fomos ainda impactados pelos dois tristes e lamentáveis episódios de intolerância aos símbolos religiosos. O abominável espetáculo de cristofobia na parada gay em São Paulo, no último domingo, bem como da iconoclastia do Ministério Evangelístico Vida Nova, de Salto Del Guaíra em 25 de março. Falo de moldura sacrílega para que não paremos ali, mas consigamos ir mais fundo em nossa iracunda sagrada e perceber que o pecado ainda mais grave é a destruição da imagem de Deus, feita por Deus: a pessoa humana.
A Procissão do Corpo de Cristo, longe de nos distrair ou alienar deve, frente a tudo isso, mobilizar outra, a Procissão aos Corpos de Cristo. O Papa Francisco não se cansa de exortar-nos a sermos uma Igreja em saída às periferias, às ruas para tocar na Carne do Cristo que padece nas vítimas do narcotráfico. O Senhor Jesus, porque se identificou com os pobres e vítimas da violência, quis se fazer Pão Eucarístico para a Vida do Mundo. Daí, a Ceia Eucarística ser chamada de Missa, de convite à Missão. Com Palavras e, sobretudo, com gestos somos arautos da esperança, mediante o amor-serviço a quem sofre. E por isso mesmo, como Ele terá acolhido nossas festas em meio a tantos horrores, dores e mortes? “Chega de violência e extermínio de jovens”!, “A juventude quer viver!”, brada a Pastoral da Juventude.
Medoro, irmão menor-padre pecador.