
Já havia concluído este nosso artigo quando fomos surpreendidos com a notícia da tragédia de Santa Maria. “Uma triste manhã de domingo recolhendo 245 vítimas da ganância humana. Piedade! Piedade! Piedade de nós”!, denuncio e rezo com Dom Mauro Morelli. A tragédia em Santa Maria é emblemática da perversidade de uma sociedade somente comprometida com o lucro e o consumo, “uma sociedade que drena sem dó o sangue e a alma do ser humano, principalmente dos jovens, sem se importar com a qualidade de vida e segurança deles. Acho que já é tempo de pararmos de alimentar esse monstro e nos repensarmos enquanto seres humanos dignos de respeito e cuidados” (Márcia Frazão).
Em artigo em que se falou sobre a esperança em relação ao futuro de Três Rios, foi lembrado que a bem sucedida retomada da vocação industrial da cidade, deve caminhar ao lado de incursões e intervenções bem sucedidas no campo social. Ou seja, a recuperação econômica, permitida pelas seguidas manifestações eleitorais do povo brasileiro, demonstrando o cansaço com o período selvagem do neoliberalismo, necessita que o Estado – nos níveis federal, estadual e municipal – empreenda ações positivas na saúde, na educação, na habitação popular, na cultura, no transporte público, segurança e lazer.
Isso só se dará com o resgate da cidadania, através do fortalecimento e valorização da democracia participativa e a consequente superação da velha politicagem, baseada no compadrio, no clientelismo e na corrupção, que deve ser substituída pela participação popular nas decisões estatais.
Nossa esperança, demonstrada naquele artigo, é que neste ano de 2013 sejam dados passos seguros e concretos na direção apontada acima. Só assim, poderemos, de fato, superar a dor permanente das famílias trirrienses – 20 % da população – que ainda vivem abaixo da linha de pobreza. Só assim também, poderemos avançar no tão sonhado resgate do encanto pela vida – que deveria ser tão natural – do importante setor de nossa juventude, que está entregue a mutilação das drogas e da exploração sexual.
Só assim, com a participação cidadã do povo organizado, construiremos a universidade pública e de qualidade, onde os filhos dos operários, possam vir a se transformar na classe dirigente e assumir a direção das inúmeras empresas que estão chegando ao nosso município.
Outra esperança, também tão importante, é a afirmação da beleza dos nossos bairros proletários, relegados desde há muito, ao descuido, ao descaso e tão carentes de medidas urbanizadoras. E, urgência urgentíssima, a criação de condições aqui mesmo em nossa cidade, de condições prisionais para que 2,5% de nossa população – hoje exilada no sistema penitenciário estadual – possam ser reeducados junto da comunidade. Ainda no campo das urgências, da necessidade de solução imediata, temos a questão, em destaque nos noticiários televisivos (Bom dia Rio, RJTV,...) das últimas semanas, do crescimento do número de nossos irmãos e irmãs vitimados pelo vírus HIV.
Mas, não custa repetir, esses sonhos e esperanças serão nada mais que sonhos e esperanças vãs, devaneios, se não forem buscados por um vigoroso movimento popular, pelos trabalhadores organizados e conscientes, pelo protagonismo de uma cidadania mais e mais ativa.
A concretização desses sonhos e esperanças, uma vida mais digna, humana e fraterna, é dever dos cristãos. As ferramentas para que isso se concretize: a construção de um vigoroso movimento popular, constituído por homens e mulheres conscientes, livres, independentes, é uma tarefa indispensável para isso.
É com esses sonhos e esperanças, que em verdade se constituem em obrigação cristã, que reiniciaremos as atividades do Movimento Fé e Política, na próxima segunda-feira, dia 4 de fevereiro, 19 horas, na comunidade de São José Operário, no Triângulo.
E retorno a Santa Maria fazendo minha a expressão de fé doída de Leonardo Boff: “Há horas,cheias de mistério,que só nos resta rezar.Rezemos pelos mortos de Sta. Maria. Eles estão em Deus.Cremos sem entender. Mas como doi!”.
Medoro de Oliveira