Irmãs e irmãos na fé, e cidadãos e cidadãs de boa vontade.

            A vida em comunidade é a expressão madura dos seguidores de Jesus. Essa herança vem da Igreja de Jerusalém, a primeira comunidade deixada por Jesus, como nos atesta São Lucas no livro dos Atos dos Apóstolos “eram perseverantes na doutrina dos apóstolos, na comunhão fraterna, nas orações e na fração do pão” (Atos 2, 42). E todas as comunidades da época apostólica tinham uma característica peculiar, como registra os textos do Novo Testamento: verdadeiras igrejas, que se reuniam nas casas (Cf. 1Cor 16,19; Rm 16,5; Col 5,15; Fm 2; Fl 4, 22).

            Foi o crescimento do cristianismo que aos poucos exigiu, a partir do século II, a construção dos templos católicos, de forma a abrigar o conjunto da comunidade cristã, já numerosa. A partir da Idade Média houve uma identificação do cristianismo com a sociedade ocidental, o que acarretou também uma organização administrativa-pastoral em paróquias, com suas matrizes e capelas. Estas chegaram até os nossos dias, tendo à frente a figura do pároco como um ministério amplo de pregar, acolher, consolar, aconselhar, celebrar, administrar e promover a caridade. Isso, contando, é claro, com a cooperação dos leigos e religiosos/as.

            Por isso a comunhão eclesial que se dava, sobretudo, pela participação igualitária de todos os batizados na única missão da igreja, acrescida da comunhão de corações, deu lugar a relações mais impessoais e a uma estrutura dicotômica de clero e leigos. A igreja ficou sendo identificada pelos bispos e padres, enquanto os demais cristãos ficaram no seu conjunto reduzido a condição de leigos. O clero detentor do poder eclesiástico e da produção dos bens religiosos e o laicato a uma atitude passiva de receptor desses bens.

            Ora, o Concílio Vaticano II – a grande reunião dos bispos do mundo inteiro, convocada pelo Santo João XXIII e levada a termo pelo Beato Paulo VI – resgatou a ideia e a experiência primigênia da igreja como pequenas comunidades que se reúnem nas casas, em que todos participam plenamente, segundo seus dons e carismas específicos, da vida, da missão e das decisões da igreja. Assim foi resgatada a grande imagem bíblica da igreja como Povo de Deus, sempre peregrino, alimentado pela palavra, cultivando a comunhão de corações, a solicitude pelos mais pobres, resgatando a rica piedade popular nas celebrações da fé e sem estruturas pesadas, dependentes do clero.  

            O Papa Francisco, fiel a essa tradição genuína da igreja como comunidades de irmãos, vem, por tudo isso, convocando os cristãos para serem igrejas nas ruas, que já são uma experiência consolidada nas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) com a riqueza dos seus Círculos Bíblicos. Mais do que coincidentemente, acreditamos ser providencial a opção pelos Círculos Bíblicos, que fazemos quando a Igreja do Brasil e a nossa Diocese os têm como a sua prioridade pastoral.

            Os Círculos Bíblicos, para os quais todos os fiéis estão sendo convocados, se reúnem semanalmente para ouvir a Palavra de Deus como luz que faz enxergar a realidade em que vivemos, aquece os corações para viver a comunhão, solta as amarras das mãos para a solidariedade com os que sofrem e agiliza os passos missionários para nos fazer presentes juntos às famílias, aos pobres e aqueles discriminados como pecadores. Junte-se a nós no protagonismo dos leigos por uma igreja a serviço da vida, da justiça e da paz.       

Medoro, irmão menor – padre pecador