
A rede de CEBs - Comunidades Eclesiais de Base - no Brasil já prepara o seu 14º Encontro Intereclesial em Londrina, agendado para 2018, debruçando sobre a realidade e os desafios do mundo urbano. E escuta repetidamente, como o Canto do Cisne, a exortação do Papa Francisco por uma Igreja em saída; enquanto busca morder a complexidade da cidade por novas perspectivas evangelizadoras. Estas devem abraçar o protagonismo do laicato como verdadeiros sujeitos eclesiais que participam da vida, missão e também decisões da Igreja. Esses igualmente sujeitos e interventores sociais que vão ao encontro dos excluídos e descartados, fazendo da Comunidade, casa de vida humana digna e de comunhão fraterna.
Nesse horizonte compartilho com o leitor a pequena, pequena mesma, mas não menos significativa e importante, experiência das CEBs, da Paróquia São José Operário, em nossa querida cidade de Três Rios, RJ. Já com 100 mil habitantes aproximadamente, retomou, nos últimos 10 anos, o seu progresso econômico e está entre os primeiros municípios brasileiros mais progressistas. É tautológico dizer, todavia, que a esse progresso não corresponde ainda o desenvolvimento humano-social, como acontece por todo o Brasil. A cidade em nosso país não é o lugar para todos. Ao contrário, progridem as periferias, persistem as áreas de miséria, as vidas sobrantes. Com estas, procura estar a Paróquia São José Operário.
Essa “minoria abraâmica” – expressão de Dom Hélder Câmara que se aplica à realidade de nossa paróquia – busca oferecer, nos últimos 6 anos, a sua “estrutura eclesial” aos páreas da próspera cidade, acolhendo em seu seio, nessas pequenas comunidades, os deserdados: as prostitutas, os drogados, os que convivem com a AIDS, os deficientes, as adolescente mães, os desempregados, os idosos, os das ruas, ... Busca fazer a “revolução da ternura” pedida pelo Papa Francisco, em fidelidade ao Evangelho da Misericórdia! Uma Igreja pobre, de pobres no meio dos pobres que a cidade, no seu conjunto, não contempla plenamente. Do ponto de vista da estrutura econômica luta, como e com os seus pobres, para sobreviver ao sufoco. Vive-se, ou sobrevive-se, a graça de cada dia sob a Providência!
O abraço misericordioso a essa realidade não é apenas para, mas com os pobres. Aqui certamente reside a novidade das nossas CEBs e de sua ação evangelizadora no contexto de Três Rios e da Diocese de Valença. As CEBs não são apenas as comunidades dos pobres empobrecidos, mas também dos pobres descartados. São CEBs em saída enquanto seus agentes pobres empobrecidos enxergam e saem ao encontro dos deserdados, dos que não mais contam e os acolhem, trazem para o seu meio e vão viver no meio deles.
Um dado complementar importante. As pessoas que buscam algo melhor migram para os grandes centros urbanos e nas cidades pequenas ficam, em geral, as que têm menos iniciativa. Uma espécie de mediocrização da periferia. Para mudar isso é de fundamental importância a multiplicação dos Círculos Bíblicos com a Leitura Orante e Popular da Bíblia. E há também abertura macro ecumênica. Já são vários os evangélicos que aderem a esses Círculos Bíblicos, às pastorais sociais e transitam bem nas Comunidades. E as liturgias simples e inculturadas da Pastoral Afro-trirriense costura bem a fé comum do povo, na sua pluralidade raiz.
As CEBs no mundo urbano periférico tem pois algumas características básicas: 1) Igreja pobre, dos pobres com e para os mais pobres; 2) Igreja ecumênica-comunional que compartilha com evangélicos a reflexão da Palavra e a caridade social; 3) Igreja macro-ecumênica que integra com sabedoria a riqueza simbólica da afro-cultura para celebrar, alimentar e manifestar a genuína fé católica popular; 4) Igreja alimentada pela Leitura Orante e Popular da Bíblia; 5) - Igreja toda ministerial porque todos participam da vida, missão e também das decisões da comunidade; 6) Igreja da misericórdia que, como o Pai do filho pródigo traz pra dentro de casa os pecadores e lhes dá plena cidadania eclesial; 7) Igreja profética que denuncia e cria estruturas de profecia para intervenção social pela vida; 8) Igreja de protagonismo juvenil na formação da fé, da cidadania e nos projetos de defesa e promoção da vida; 9) Igreja eucarística que celebra a gratuidade da presença e a gesta libertadora do Deus-Melhor Comunidade; e 10) Igreja de muitas festas para cultivar a alegria da fé e a paz entre os irmãos.
Perspectiva, pois das CEBs no mundo urbano: ser uma Igreja em saída!
Medoro, irmão menor-padre pecador