
Na alvorada do Concílio Vaticano II, em meio ao clima de renovação da Igreja, nascia no Brasil e na América Latina as CEBs – Comunidades Eclesiais de Base – como um jeito novo da Igreja ser. A centralidade da Palavra de Deus, refletida a partir do Método Ver, Julgar e Agir, suscitou um compromisso novo com a transformação da sociedade e uma prática nova nas relações dos fieis superando a clássica dicotomia entre clero/leigos. Nascia uma comunidade ministerial - comunional em que todos participam da vida, missão e decisões da Igreja. A união entre Fé e Vida se manifesta no protagonismo do laicato nos movimentos populares e nas celebrações inculturadas e integradoras da religiosidade popular.
Aos poucos as Comunidades foram se articulando até celebrarem sua caminhada nos Encontros Inter-clesiais de CEBs. Estamos festejando nesses dias a memória do 7º Encontro acontecido na Diocese de Duque de Caxias de 10 a 14 de Julho de 1989, sob o tema Povo de Deus na América Latina a caminho da Libertação. Passados 25 anos as Comunidades do Estado do Rio – Regional Leste 1 da CNBB - vão encontrar- se em Duque de Caxias mesmo, no próximo domingo, 30, para festejar a história e preparar o 15º Encontro previsto para Londrina em 2018; o que terá como tema “CEBs e os desafios no mundo urbano”, e lema: “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3,7).
Vamos também comemorar a Beatificação de Dom Oscar Romero, Arcebispo de El Salvador, América Central, assassinado há 35 anos no momento da consagração do vinho em Sangue do Senhor. Crime militar contra quem tomou a peito a defesa dos excluídos do país, a exemplo do Bom Pastor. Muito cedo foi chamado de São Romero da América. Nesse último domingo, 24, o Papa Francisco o proclamou Beato. O seu assassinato se deu em 24 de março de 1980, quando um franco atirador lhe acertou, com uma bala calibre 22, no coração quando celebrava a Missa na capela do Hospital da Divina Providencia em São Salvador. Ali, pronunciou a sua ultima homilia como um profeta da resistência e da denuncia das violações dos direitos humanos.
A cada domingo a sua homilia na Catedral era ouvida por centenas de pessoas que ali se inteiravam das noticias sobre seqüestros, desaparecimentos e assassinatos. No momento de sua morte era claramente um líder popular, e seu prestígio havia ultrapassado as fronteiras de seu pequeno país. Recordo que em 02 de fevereiro de 1980, a Universidade Católica de Lovaina lhe outorgou o título de Doutor Honoris Causa como reconhecimento de sua luta em defesa dos direitos humanos. Nessa ocasião ao agradecer a homenagem, Dom Romero disse, entre outras coisas, que “as maiorias pobres de nosso país são oprimidas e reprimidas cotidianamente pelas estruturas econômicas e políticas”. Denunciou a perseguição da Igreja “porque parte da igreja se colocou do lado dos pobres e saiu em sua defesa”.
Na mesma ocasião disse que “o mundo dos pobres nos ensina que a libertação chegará não só quando os pobres sejam puros destinatários dos benefícios dos governos ou da mesma Igreja, se não atores e protagonistas, eles mesmos, de sua luta e de sua libertação; desmascarando assim a raiz ultima de falsos paternalismos ainda que da própria Igreja”. Ainda sustentou que “ou servimos a vida dos salvadorenhos ou somos cúmplices de sua morte”. Consciente de que sua vida estava em perigo, pouco antes de seu assassinato adiantou “desde já ofereço o meu sangue pela redenção e ressurreição de El Salvador... que meu sangue seja semente de liberdade. Faço minhas as palavras de Dom Casaldáliga: “O povo te fez santo, os pobres te ensinaram a ler o Evangelho”.
Medoro, irmão menor – padre pecador.