
Temos refletido nas últimas quartas feiras sobre esse jeito novo de ser Igreja: as CEBs-Comunidades Eclesiais de Base. Nas últimas décadas, sob a inspiração do Concílio Vaticano II (Concluído em 1965, sob o pontificado de São Paulo VI), vimos surgir sob o protagonismo de leigos e leigas, sobretudo nas áreas de periferia das grandes cidades e na zona rural, pequenas comunidades católicas. Estas, em comunhão profunda com seus respectivos párocos e sob seu incentivo e apoio, começaram a se reunir para refletir a Palavra e Deus em pequenos Grupos de Reflexão Bíblica – chamados, hoje, de Círculos Bíblicos -; reuniam-se também para celebrar o Culto Dominical, aonde não tinham a Missa semanal; ainda para praticar a caridade com os mais empobrecidos e iniciaram as primeiras organizações de instituições civis em defesa dos direitos humanos, como sindicatos de trabalhadores, associações de moradores, cooperativas de produção, sobretudo agrícolas e outras. A articulação natural entre fé bíblica e compromisso social as caracterizaram desde o início!
Gostaríamos de enfatizar no diálogo dessa semana a sua eclesialidade, a sua segunda categoria: “Eclesial”; como na semana passada enfatizamos o termo “Base”. Esta palavra “Eclesial” é sinônimo de Igreja, tal qual os cristãos compreenderam desde a primeira hora da nossa fé e seguimento de Jesus Cristo, como discípulos-missionários, em comunidade. Como nos recorda o quinto livro do Novo Testamento, o Atos dos Apóstolos no capitulo 2, e nos versículo 42-47: E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em todos havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo as necessidades de cada um. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração. Louvavam a Deus, e eram estimados por todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.
As CEBs buscam assim viver sua eclesialidade em pequenas comunidades ouvintes da Palavra de Deus. O Catecumenato de crianças, jovens e adultos para a iniciação na vida cristã em comunidade avançam em relação ao antigo catecismo em que muitos de nós recebemos a doutrina da fé. Os Círculos Bíblicos pelas casas, além de alimentar a mesma fé, inspiram atitudes humanitárias e compromissos sócio transformadores. As liturgias são simples e inculturadas: as Celebrações Dominicais da Palavra, por falta das Missas devido a escassez de padres alimentam o encontro com Deus; e as Missas de crianças, de jovens, de casais, de enfermos e afro inculturadas, embora raras alimentam a piedade e a vida cristã. A rica tradição popular católica se manifesta também nas assíduas rezas do Terço de Nossa Senhora, com especial destaque para os meses de maio e outubro, nas Ladainhas de todos os Santos, no auxílio orante das santas benzedeiras e santos rezadores, na veneração das imagens da piedade local, inclusive com o acendimento de velas e defumadores; as múltiplas novenas entre outras belas práticas religiosas autênticas.
Em tudo isso as relações interpessoais são ricamente valorizadas como as escolhas e o cultivo das comadres e compadres; as refeições compartilhadas em que cada casa oferece o que tem e pode e os que despossuídos são igualmente acolhidos sem constrangimento; os mutirões para edificação dos barracos e casinhas, espaço de lazer para as crianças e jovens – como um campinho de futebol de vascaínos, rsrsrs -; a enriquecedora e simples prática de “jogar conversa fora” em vez e escravizar-se às novelas e outros programas televisivos; e o comovedor cuidado solidário entre vizinhos e irmãos próprios para com os doentes e idosos são alguns dos muitos sinais de que vivem em fraternidade e tem tudo em comum.
Isso tudo, mais do que um jeito novo, é um jeito bíblico de ser Igreja. No próximo domingo, Solenidade de Cristo Rei, vamos celebrar do Dia dos leigos e Leigas; o que será matéria de nossa reflexão sobre a primeira palavra das CEBs: Comuidade!
Medoro, irmão menor-padre pecador.